Violência piora situação de somalis que fogem da seca

Dez refugiados famintos foram mortos por soldados que tentavam saquear caminhão da ONU na capital

Reuters e AP, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Homens armados abriram fogo ontem contra civis famintos durante a distribuição de alimentos num campo de refugiados na capital da Somália, Mogadíscio, matando ao menos 10 pessoas e ferindo outras 15.

Testemunhas acusam soldados de tentar roubar os alimentos, enquanto voluntários tentavam manter grupos armados fora do maior campo para refugiados de Mogadíscio. Com a confusão, refugiados também avançaram sobre os caminhões e os soldados abriram fogo. "Foi um massacre. Eles atiraram em todo mundo", disse Abdi Awale Nor, que vive no campo. "Os corpos foram deixados no local e os feridos sangraram até morrer."

Cerca de 3,7 milhões de somalis estão ameaçados pela fome, a maioria no sul do país, o que leva milhares até Mogadíscio e arredores, na esperança de receber alimentos.

"Atiraram contra nós como se fôssemos inimigos", afirmou o refugiado Abidyo Geddi. "Quando as pessoas começaram a retirar comida dos caminhões, começaram os tiros e muita gente foi baleada. Não podemos ficar aqui por muito tempo. Não temos alimentos e o pouco que é distribuído causa morte e tortura", disse.

O campo de Badbaado abriga cerca de 30 mil pessoas. Depois do ataque de ontem, muitos fugiram. Só nos últimos 2 meses, cerca de 100 mil refugiados chegaram a Mogadíscio, e centenas estão a caminho todos os dias.

Muitas milícias privadas, a maioria com conexões políticas, disputam a segurança dos campos de refugiados ou roubam a ajuda humanitária. O alimento saqueado costuma ser vendido em Mogadíscio.

Pelo menos quatro grupos armados lutam pelo controle da capital. Soldados somalis controlam apenas uma pequena parte da cidade, e são pouco treinados.

Crise de fome. É a primeira vez nas duas últimas décadas - período em que a Somália não tem um governo central - que o país vive uma crise de fome (quando mais de 30% das crianças são desnutridas, 2 adultos ou 3 crianças morrem de fome por dia num grupo de 100 mil pessoas).

A Somália enfrenta ainda a pior seca dos últimos 60 anos. A distribuição de ajuda humanitária é dificultada por militantes da Al-Qaeda, já que o grupo radical al-Shabab controla a maior parte do território somali.

A seca e a fome mataram 29 mil crianças nos últimos 90 dias, de acordo com estimativas do governo dos EUA.

A distribuição de alimentos realizada ontem foi organizada pelo prefeito da capital. Ela tinha sido adiada duas vezes por falta de condições de segurança. Testemunhas afirmam que, depois dos disparos, os soldados saquearam o veículo e deixaram o local.

A ONU admite que a ajuda costuma ser roubada e diz que as agências humanitárias só têm condições de atender até 2 milhões de somalis nas áreas mais atingidas pela seca, porque a milícia proíbe o acesso das organizações.

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