Violência pós-Katrina e justiça

Dias depois de o furacão Katrina deixar grande parte da cidade de New Orleans inundada e em ruínas, houve uma enxurrada de relatos de violência e banhos de sangue.

TRYMAINE LEE, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

As narrativas sobre aqueles dias caóticos - feitas principalmente com base em rumores infundados e histórias precipitadas - rapidamente se consolidavam numa espécie de consenso alarmante: negros pobres e saqueadores estavam matando pessoas inocentes e aterrorizando quem passava à sua frente na cidade escura e sem proteção.

"Quando você relembra, na época em que isso foi comentado, é como se a cidade estivesse sitiada", disse Russel L. Honor, tenente aposentado que conduziu os trabalhos de ajuda do Exército após a passagem do furacão.

Hoje, um quadro mais nítido vem surgindo, também alarmante, incluindo a violência por parte de brancos, assassinatos pela polícia, autoridades encobrindo fatos e uma população sofredora muito mais brutalizada do que muitos queriam acreditar. Diversos policiais e um cidadão branco acusados de violência racial já foram indiciados e outros incidentes vêm sendo revelados desde que o Departamento de Justiça iniciou várias investigações sobre violações de direitos civis ocorridas depois da passagem do Katrina.

"O ambiente criado pelo furacão despertou o que estava adormecido nas pessoas aqui - o ódio e o desprezo que sentem pelos afro-americanos na comunidade", disse John Penny, criminologista da Southern University de New Orleans. "Nunca saberemos quantas pessoas foram mortas a tiros, ou cujos corpos jamais serão encontrados."

Os diques destroçados deixaram 80% da cidade submersa, mas na área não inundada de Algiers Point, por exemplo, um enclave de brancos numa área predominantemente negra, na margem ocidental do Rio Mississippi, milícias brancas armadas fecharam muitas ruas do bairro.

Eles colocaram cartazes dizendo "atiramos nos saqueadores". E disparos eram ouvidos nos dias e noites quentes como se fossem estrondos de trovões de uma nova tempestade.

Reginald Bell, um cidadão negro, disse numa entrevista ter sido ameaçado com uma arma por dois homens alguns dias após a passagem do furacão. Os homens, num terraço a algumas quadras da sua casa, gritaram para ele: "não queremos gente do seu tipo por aqui." Então, um dos homens apontou sua espingarda na direção de Bell e o desafiou a andar de novo pelas ruas de Algiers Point. No dia seguinte, os homens de novo o confrontaram quando estava na varanda da sua casa com a namorada. Eles empunharam suas armas - uma espingarda e uma Magnum 357 - apontaram para o rosto do casal e repetiram a mesma coisa.

Machado. "Não havia luz elétrica, nem polícia, nada", disse Reginald Bell, de 41 anos. "Éramos presas fáceis. Eu dormia com uma faca de açougueiro e um machado sob o travesseiro." A margem ocidental da cidade foi poupada pelas águas, mas nos dias e semanas posteriores ao furacão, estava coberta de árvores caídas e, segundo testemunhas, de corpos de negros - nenhum deles com sinais de afogamento.

"Vi corpos estendidos nas ruas durante semanas", disse Malik Rahim, que mora próximo de Reginald Bell e veio em sua ajuda. "Não estou falando da Ninth Ward (área mais afetada pelo furacão), mas de Algiers. Vi corpos intumescidos e dilacerados pelos cães. E todos com ferimentos de balas."

"Estamos gritando a plenos pulmões desde aqueles primeiros dias, mas ninguém nos ouviu", disse Reginald Bell, que procurou a polícia logo depois do incidente com os dois brancos, mas cuja queixa não foi registrada. Só no ano passado, quando foi entrevistado por um grande júri federal que examina as violações de direitos civis em New Orleans após o Katrina que as pessoas parecem dar atenção ao caso, disse ele.

Algumas das acusações mais graves surgiram depois das investigações realizadas pelo The Times-Picayune e a organização ProPublica, que trouxeram a público a violência policial e racial em Algiers Point Um dos casos é o de um ex-morador da região, Roland J. Bourgeois Jr, branco, acusado de fazer parte de um grupo de vigilantes.

Ele foi indiciado pelo governo federal, acusado de envolvimento no assassinato a tiros de três negros que tentavam fugir da cidade. De acordo com o laudo de acusação, Bourgeois, que vive hoje no Mississippi, alertou um vizinho que "qualquer coisa que passar pela rua mais escura do que um saco de papel pardo vai levar um tiro".

"O caso mais comentado envolvendo a polícia foi um incidente em Danziger Bridge, quando policiais com fuzis e armas automáticas atiraram contra um grupo de civis desarmados, ferindo quatro pessoas de uma família e matando duas, incluindo um adolescente e um homem com deficiência mental.

O homem, Ronald Madison, de 40 anos, levou um tiro de espingarda nas costas e depois foi pisoteado e chutado até morrer, segundo os autos do processo.

Em maio, o prefeito Mitch Landrieu pediu ao Departamento de Justiça que conduzisse uma reforma total do Departamento de Polícia da cidade. O Departamento abriu também diversas investigações de caráter civil e criminal sobre a violência envolvendo policiais após o Katrina.

Thomaz Perez, procurador-geral assistente, disse que o governo está investigando oito casos criminais envolvendo má-conduta de policiais.

Muitas pessoas na cidade - incluindo ativistas, vítimas e testemunhas - há muito tempo sustentam que a violência racial foi ignorada pela polícia local.

"Fomos rechaçados como malucos nos últimos quatro anos", disse Jacques Morial, codiretor do Instituto de Justiça de Louisiana, instituição não lucrativa de defesa dos direitos, e filho do primeiro prefeito negro de New Orleans. "O que estamos vendo agora vai reconfigurar a realidade do Katrina e vingar muita gente." O superintendente da polícia da cidade, Ronald Serpas, que assumiu o departamento em maio, disse estar preocupado pelo que vem sendo revelado desde o furacão.

"Temos de confrontar e encarar honestamente esta questão", disse ele. "São muitos exemplos de homens com um distintivo que reconheceram ter tido um comportamento que foi um insulto enorme a esta cidade e aos homens e mulheres deste departamento que carregam sua insígnia com dignidade e orgulho", concluiu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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