Violência pré-eleitoral mata mais 7 na Ucrânia

Grupos de extrema direita assumem ofensiva no leste e eleições estão ameaçadas

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL , DONETSK, KARLOVKA, UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2014 | 02h04

Milicianos pró-Ucrânia do Batalhão Donbass e do grupo paramilitar de extrema direita Pravyi Sektor atacaram ontem barreiras mantidas por separatistas nas entradas de Donetsk, maior cidade do leste da Ucrânia, num confronto que deixou sete mortos, elevando a 21 o número de vítimas entre a quinta-feira e ontem.

O episódio agravou o clima de tensão às vésperas da eleição de amanhã, a mais importante desde a independência do país, em 1991. Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a Ucrânia vive uma guerra civil.

Os combates de ontem ocorreram na periferia nordeste de Donetsk, no vilarejo de Karlovka, onde o Estado esteve após o fim das hostilidades.

Na entrada do vilarejo, a 30 quilômetros do centro da capital, uma barreira antes em poder de separatistas estava abandonada. Em volta dela, centenas de cápsulas de fuzis espalhavam-se pelo chão. Um posto de gasolina estava parcialmente destruído e um veículo, alvejado. Havia rastros de sangue no chão, indicando a violência dos choques.

Segundo moradores, o ataque começou no início da manhã e envolveu veículos blindados. "Ouvi as rajadas de tiros e fiquei escondido em casa. Não pude ver quem foi (que disparou)", disse um morador que preferiu não se identificar.

As dúvidas foram diluídas ainda pela manhã, quando Semen Semenchenko, comandante do batalhão Donbass - milícia pró-Ucrânia da região de Donetsk -, assumiu a autoria do ataque. "O campo de batalha da região de Donetsk chegou a Karlovka", informou ele. Ao lado do batalhão estariam combatendo militantes do grupo Pravyi Sektor, formado por ativistas de extrema direita armados - os mesmos que enfrentaram as tropas de choque na Praça da Independência, em Kiev, durante os protestos que derrubaram o presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro.

A chegada de milicianos pró-Ucrânia na região, onde também estão estacionadas tropas regulares do Exército, aumentou a tensão militar às vésperas da eleição. Barricadas de ativistas pró-Rússia nos acessos da cidade foram reforçadas com dezenas de homens em trajes militares e portando coletes à prova de balas, fuzis e, em alguns casos, lançadores de granadas.

O objetivo dos separatistas é impedir uma suposta ofensiva até amanhã. Na quinta-feira, pelo menos 14 pessoas já tinham morrido nas duas emboscadas realizadas em Volnovaha e nas imediações de Slaviansk.

De acordo com o Ministério da Defesa da Ucrânia, separatistas teriam revidado, atacando um comboio militar em Roubijne, na região de Luhansk, em uma ação que teria deixado um soldado morto.

Guerra civil. Em São Petersburgo, Vladimir Putin afirmou que a Ucrânia vive "uma verdadeira guerra civil". Ele contestou a legitimidade das eleições, mas prometeu "respeitar a escolha do povo ucraniano". "Segundo a Constituição, não poderia haver eleição porque Yanukovich ainda é o presidente em exercício", ponderou Putin, dizendo em seguida estar pronto para dialogar com o novo governo. "Nós queremos que a calma retorne."

Em Kiev, o presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov, convocou a população a comparecer às urnas amanhã. "Nós não nos deixaremos ser privados de nossa liberdade e independência e não deixaremos que a Ucrânia se torne um pedaço do império pós-soviético", afirmou.

Urnas. O chefe do Conselho de Segurança Nacional e de Defesa, Andrii Paroubyi, voltou a reconhecer que os moradores de Donetsk, Luhansk e Slaviansk devem ter dificuldades para votar. Ontem, o Estado visitou locais que deveriam servir como seções eleitorais em Donetsk, mas nenhuma estava aberta ou preparada.

Ao jornal francês Libération, Denis Puchiline, presidente autoproclamado da República Popular de Donetsk - movimento independentista que não tem o reconhecimento internacional -, disse que não proibirá a votação, mas não impedirá separatistas de fecharem seções eleitorais. "Quem quiser votar, votará", disse. "Mas muita gente vem nos pedir para impedir a eleição. É a população que fecha sozinha os locais de voto."

Segundo a pesquisa de opinião divulgada ontem, o empresário Petro Poroshenko tem 44% das intenções de voto, em primeiro lugar, à frente da ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko, líder do movimento revolucionário de 2004, com apenas 8% da preferência. Com exceção dos votos brancos e nulos, Poroshenko tem chances de ser eleito amanhã, dispensando a necessidade de um segundo turno.

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