Violência salafista leva Túnis a decretar toque de recolher

Medida vigora na capital e em outras quatro cidades da Tunísia, onde uma mostra de arte provocou a revolta dos radicais

TÚNIS, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h02

O governo da Tunísia declarou ontem toque de recolher em Túnis e mais quatro cidades em razão de uma onda de confrontos entre muçulmanos salafistas e a polícia. Ao menos 65 policiais ficaram feridos e 162 pessoas foram presas desde domingo após o grupo ultraconservador muçulmano Ansar el-Sharia protestar contra uma mostra de arte considerada ofensiva ao Islã na capital do país.

De acordo com o diretor de comunicações do Ministério do Interior, Ridha Kazdalli, o toque de recolher é temporário e será levantado assim que a situação melhorar. A medida é válida entre 21 e 5 horas, horário local, e está em vigor na capital, Sousse, Monastir, Kendouba e Ben Guardane.

No começo do dia, a polícia disparou tiros para o ar para tentar dispersar cerca de 2,5 mil salafistas que protestavam nos subúrbios da capital. Alguns deles invadiram mesquitas e conclamaram os tunisianos a reagir para defender o Islã. Houve confronto. Os ultraconservadores depredaram um delegacia, saquearam lojas e queimaram automóveis.

A polêmica exibição de arte, que também foi vítima de vandalismo, tinha uma caricatura da cidade sagrada de Meca, um retrato de uma mulher nua e uma tela com a palavra Alá escrita com formigas. "O ataque desses artistas ao Islã não é novidade", disse à agência Reuters um jovem salafista que se identificou como Ali. "O silêncio do governo apenas complica a situação."

Tensão. O novo governo, a cargo do partido islâmico moderado Enhada, foi eleito em novembro, dez meses após a deposição do ditador Zine Abedine Ben Ali, na onda de protestos populares que originou a Primavera Árabe.

Membros do governo consideraram a exibição artística provocativa, mas disseram que não há desculpas para a onda de violência. O ministro do Interior Ali Larayedh responsabilizou grupos salafistas, criminosos comuns e antigos aliados do ex-ditador Ben Ali pelos protestos. Segundo ele, esses grupos querem minar a Revolução de Jasmin, que levou à queda do ditador e marcou o início da Primavera Árabe.

Os confrontos nas ruas tunisinas é o último sinal da crescente tensão entre os salafistas e seculares no país. Em maio, os ultraconservadores, contrários ao consumo de bebidas alcoólicas, atacaram bares na cidade de Sid Bouzid. Dias depois, dezenas de salafistas apedrejaram uma delegacia em Jendouba. Um segundo episódio ocorrera em Ghadirmaou. / REUTERS

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