Violência se espalha durante funeral de opositor assassinado na Tunísia

Bombas de gás lacrimogêneo e tiros disparados para o alto pela polícia não impediram que milhares de pessoas protestassem ontem contra o governo da Tunísia durante o funeral de Chokri Belaid, líder opositor assassinado na quarta-feira. Enquanto o cortejo fúnebre seguia pelas alamedas do cemitério de Jellaz, centenas de jovens atearam fogo em carros nas ruas adjacentes e atacaram policiais com paus, pedras e barras de ferro.

YAN BOECHAT , DUBES SONEGO, ESPECIAL PARA O ESTADO / TÚNIS, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2013 | 02h06

Em meio ao caos na entrada principal do cemitério, jovens tunisianos pobres, vindos da periferia de Túnis, passaram a roubar as pessoas que participavam do protesto. Ao menos três jornalistas estrangeiros que cobriam a manifestação foram atacados.

Além da violência, o dia foi de luto na capital. Desde o início da manhã, milhares de pessoas seguiram para um centro cultural em Jebel al-Jaloud, bairro de classe média onde Belaid nasceu e viveu boa parte de sua juventude. Gritando slogans contra o governo, acusando os islamistas de terem ordenado o assassinato e pedindo uma "nova revolução", os manifestantes seguiram até o cemitério de forma pacífica.

O corpo de Belaid seguiu em um jipe do Exército escoltado por soldados armados. À frente do caixão, a filha mais jovem do líder, Neyouz Belaid, fazia o sinal da vitória para a população. Nas ruas, muitos homens e mulheres choravam e uma senhora teve uma crise nervosa a poucos metros do cortejo.

Foi na chegada do corpo ao cemitério que os confrontos começaram. Após o enterro, a violência se espalhou para as ruas centrais de Túnis, que ficou praticamente deserta durante todo o dia em razão de uma greve geral convocada pelos sindicatos. Ao contrário da maior parte dos países islâmicos, a sexta-feira é um dia de trabalho normal na Tunísia. Mesmo assim, todo o comercio fechou as portas e o transporte público não funcionou.

Até o início da noite, manifestantes tentavam chegar à Avenida Habib Bourguiba, onde está o Ministério do Interior, um dos símbolos do terror dos anos do ditador Zine al-Abidine Ben Ali. Eles atacaram com pedras e paus, mas foram repelidos pela polícia, que disparou bombas de gás. Usando motocicletas, grupos de policiais perseguiram e prenderam estudantes pelas ruelas do centro.

Pela primeira vez desde o início dos confrontos, na quarta-feira, soldados do Exército passaram a patrulhar as ruas de Túnis. Helicópteros sobrevoaram durante todo o dia o centro da capital. Apesar da presença dos militares, não há relatos de que eles tenham atuado para conter os distúrbios.

A contrário dos policiais, armados com lançadores de bombas de gás e porretes, os militares estão equipados com fuzis. Ao menos três blindados do Exército foram estacionados em áreas estratégias da cidade.

Boa parte dos milhares de tunisianos que foram ao maior funeral desde a morte do presidente Habib Bourguiba, herói da independência tunisiana, em 2000, condenaram a ação violenta ocorrida ontem.

"Há uma desconfiança de que esses jovens sejam uma espécie de milícia do Ennahda (partido governista), que estejam incitando a violência e o caos para desestabilizar o país", afirmou Lina Ben Mhenni, premiada blogueira que teve ativa participação na revolução que depôs Ben Ali e foi indicada ao Nobel da Paz em 2011.

A opinião de Lina tem ganhado força entre os moderados. "Nós não queremos violência, exigimos apenas que o que foi prometido na revolução ocorra de fato. Até agora, nada mudou", disse Saida Slimi, professora de uma escola de ensino médio de Túnis. "Eles são pagos pelo Ennahda para trazer o caos, não estão ali por ideologia. Estão ali porque recebem 32 dinares (cerca de R$ 40) ao dia para atacar a polícia."

Incertezas. Saled traça o perfil dos jovens que desafiam a polícia desde a quarta-feira. Eles têm menos de 16 anos, moram na periferia de Túnis, não estudam nem trabalham. Acompanhado de uma dezena de amigos, pouco antes de os conflitos começaram, ele disse que estava disposto a enfrentar a polícia para vingar a morte de Belaid.

"Ele era nossa voz. Vamos lutar por sua honra", afirmou. O dia terminou em Túnis com ainda mais incertezas do que começou. Os confrontos da tarde reforçaram mais o temor de que o país entre em uma nova espiral de violência com consequências imprevisíveis.

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