Violência se esquece

Como reeducar criminosos e fazê-los abrir mão de vingança

Joe Nocera*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

13 de novembro de 2013 | 02h03

Em 1995, o epidemiologista Gary Slutkin regressou aos EUA proveniente da África, onde passara dez anos ajudando os africanos a combater o contágio de moléstias como tuberculose, aids e cólera. "Estava exausto", ele disse numa conferência, no início deste ano. "Eu só queria voltar para casa e fazer uma pausa".

Entretanto, ao voltar para Chicago, os amigos o puseram a par da epidemia de violência que dominava os bairros da cidade. Começou então a estudar o problema e chegou à conclusão de que a violência com o emprego de armas nos bairros pobres se parecia com as epidemias que ele tratara na África. Nos mapas que mostravam a localização da violência, ela aparecia em pontos específicos, assim como as doenças infecciosas. O principal indicador de um comportamento violento futuro é sempre um incidente violento, o que também acontece num processo epidêmico.

Em 2000, ele fundou a CeaseFire (hoje conhecida como Cure Violence), uma organização com sede em Chicago para tratar da violência em um desses aglomerados urbanos como uma questão de saúde pública e não como um problema criminal. O uso de armas de fogo caiu drasticamente.

Desde então, a ideia de Slutkin se espalhou pelas comunidades de todo o país, inclusive em Crown Heights, no Brooklyn. Recentemente, passei uma tarde no local para ver como uma estratégia de saúde pública pode ser aplicada no tratamento da violência.

Anos antes, a diretora do centro, Amy Ellenbogen, decidira tratar este problema naquela comunidade afro-americana. Ela levou três anos para conseguir financiamento - que veio graças ao estímulo econômico. Nessa altura, começou a investigar possíveis modelos que contribuíssem para reduzir o uso de armas. Quando tomou conhecimento da ideia de Slutkin, ficou extremamente interessada: "Aquilo fazia muito mais sentido para nós", ela afirma.

Assim como uma epidemia, o segredo é a intervenção. O primeiro passo no combate a uma epidemia é descobrir os vetores da doença. O programa Salvem Nossas Ruas (Save Our Streets, em inglês) contratou uma equipe chamada de "participação comunitária" - cujos membros anteriormente também praticaram a violência com armas de fogo - com a função de identificar os elementos da comunidade que tinham maior probabilidade de cometer atos de violência. Então estabeleceram um relacionamento com estas pessoas, com o objetivo de dissuadi-las a usar armas.

O programa tem uma segunda equipe formada por "intermediadores", que atuam quando acontece alguma coisa que poderia levar uma pessoa do bairro a atirar em outra. Finalmente, um integrante do grupo tem a tarefa de ir até o hospital sempre que alguém é baleado. Seu papel consiste em convencer a pessoa contra a qual foi cometida a violência, e sua família e amigos, a não querer vingar-se usando uma arma. Quando manifestei certo ceticismo quanto à possibilidade de os membros de uma gangue darem ouvidos a este tipo de aconselhamento, um dos trabalhadores do grupo de participação comunitária respondeu imediatamente: "Nós temos condições de exercer certa influência porque já vivemos esse tipo de experiência".

Há um segundo motivo que faz com que as intervenções funcionem. "Se você é o membro de uma gangue, seu maior medo é levar um tiro", diz Daniel Webster, codiretor do Johns Hopkins Center para Política de Armas e Pesquisa.

Ele acredita que programas como o SOS são eficazes porque frequentemente os membros de gangues procuram razões para não recorrer ao uso de armas. "Se sugerirmos aos membros de uma gangue que votem para saber se um sujeito que desrespeita o outro deveria levar bala, a grande maioria responderá 'não'", diz Webster. "Mas eles se sentem impotentes para abandonar esse tipo de comportamento sozinhos."

Em 2010, o primeiro ano de atuação da Salvem Nossas Ruas, o número de incidentes com armas de fogo na área de 40 quarteirões onde o programa atuava caiu de 28 para 13. Jens Ludwig, economista da Universidade de Chicago, disse que é difícil avaliar em termos científicos o sucesso de programas como esses, mas suas experiências pessoais o convenceram que as intervenções podem funcionar. Jens realizou um estudo controlado no qual um grande grupo de estudantes do ensino secundário assistiu a uma aula semanal que falava de mudança de comportamento. Outro grupo não assistiu a essas aulas. Embora os estudantes que se matricularam no curso só tenham assistido em média a 13 aulas, eles apresentaram 44% menos probabilidade de ser presos.

Há muito eu acredito que, mesmo sem uma legislação específica, é possível reduzir consideravelmente a violência quando as normas de comportamento podem ser modificadas. Por exemplo, os pais podem começar a perguntar a outros pais se têm uma arma em casa - e se ela está trancada em algum lugar - antes de permitir que seus filhos brinquem juntos. Gary Slutkin e grupos como a SOS mostram que isso é igualmente válido em alguns dos bairros mais perigosos dos EUA. Como Amy Ellenbogen disse: "A violência é um comportamento que o ser humano aprende com os outros. E ele pode desaprendê-la".

*Joe Nocera é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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