Violência sectária em cidade iraquiana deixa 91 mortos em quatro dias

Quatro dias de violência sectária na cidade de Balad, a 80 km ao norte de Bagdá, já deixaram pelo menos 91 mortos, enquanto na capital e outras partes do país, ao menos outras 37 pessoas foram assassinadas nesta segunda-feira - entre elas o irmão do procurador-chefe no segundo julgamento do presidente deposto Saddam Hussein.Cinco soldados e dois fuzileiros navais dos Estados Unidos foram mortos no domingo, elevando para 14 o número de militares americanos mortos no Iraque nos últimos três dias. Centenas de iraquianos e 58 militares americanos foram mortos nas duas primeiras semanas de outubro no Iraque.As autoridades iraquianas mostram-se incapazes, ou sem disposição, de pôr um fim ao derramamento de sangue em Balad e arredores. A violência explodiu com a descoberta dos cadáveres decapitados de 17 operários xiitas seqüestrados.Os xiitas retaliaram estabelecendo bloqueios rodoviários por toda a cidade. Balad é uma cidade de maioria xiita cercada por aldeias majoritariamente sunitas.De acordo com testemunhas, os sunitas pegos nos bloqueios eram sumariamente executados, fossem ele culpados ou não. Quase todas as testemunhas que conversaram com a Associated Press recusaram-se a revelar a identidade pelo temor de represálias.Mohamed Ali Hamid, um taxista sunita de 35 anos, afirmou que caminhou durante duas horas do domingo com 20 pessoas de sua família para chegar até a aldeia sunita mais próxima de Duluiyah. Os milicianos xiitas, acompanhados pela polícia, deram à população sunita o prazo de duas horas para que abandonassem a cidade de Balad. "Nos disseram ´vocês são sunitas e não é bom ficarem aqui´", contou Hamid. Segundo ele, os xiitas "queimaram tudo relacionado aos sunitas e nos obrigaram a deixar tudo para trás". O depoimento foi feito em uma delegacia policial a qual ele foi encaminhado depois de ser detido na estrada que liga Duluiyah a Balad. As cidades são divididas pelo rio Tigre. Dos 80 mil habitantes de Balad, 70% são xiitas, quantidade levemente superior à média nacional.Baixas americanasA violência no Iraque também sacrificou um grande número de soldados americanos nos últimos dias. O Exército dos Estados Unidos informou que três marines e quatro soldados foram mortos entre sexta-feira e domingo em combates nos arredores de Kirkuk, a 290 quilômetros ao norte de Bagdá. Outros soldados ficaram feridos e foram levados a um hospital militar da região.Três marines foram mortos na província de Anbar, região oeste do país, segundo militares. Três soldados foram mortos em uma explosão na beira de uma estrada ao sul de Bagdá, no sábado, enquanto quatro foram mortos na sexta-feira, no sudeste da capital.Estado IslâmicoEnquanto isso, uma rede de militantes que inclui membros da Al-Qaeda no Iraque anunciaram em um vídeo a criação de um Estado Islâmico sunita em seis províncias do país, uma tentativa de forçar a retirada das tropas americanas do Iraque, apoiadas pelo governo iraquiano.O Conselho Shura dos Mujahedin - organização insurgente iraquiana - afirmou que o novo Estado inclui seis províncias iraquianas, incluindo Bagdá, que possui grande parte de sua população composta por sunitas. Duas das províncias que formam o Estado são de maioria xiita.Respondendo ao anúncio do novo Estado, o porta-voz do Parlamento iraquiano, Mahmud al-Meshhedani, acusou os líderes do grupo de "infiéis, que somente querem matar pessoas tendo o pretexto da jihad (guerra santa)"."Os que acreditam nesse Estado são ignorantes e os que o seguem são tolos", afirmou al-Meshhedani. "Este conselho gerou o conflito sectário e o conflito entre xiitas e sunitas", segundo ele.O anúncio feito pelo grupo, entretanto, destaca a fragilidade do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki e a inabilidade do governo de unir as polícias do país.Em Bagdá, homens armados invadiram a casa do irmão do procurador-chefe no segundo julgamento de Saddam Hussein e o mataram a tiros na frente de sua mulher.Imad al-Faroon, era irmão do procurador-chefe Muqith al-Faroon, que lidera a equipe que acusa Saddam de crimes contra a humanidade por sua suposta participação no massacre de milhares de curdos durante a guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988.Em Suwayra, 40 km ao sul de Bagdá, nove pessoas morreram e 35 ficaram feridas quando um carro-bomba explodiu num movimentado mercado de rua da cidade.

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