PEDRO PARDO / AFP
Caravana de imigrantes da América Central chega a Tijuana, no México: para a maioria dos refugiados, fuga para os EUA é uma questão de sobrevivência PEDRO PARDO / AFP

Violência semeada pelos EUA alimenta caravana de imigrantes da América Central

Americanos deportaram líderes de gangues centro-americanas nos anos 90; agora, recebem suas vítimas

Cristiano Dias, enviado especial à Cidade da Guatemala, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2018 | 05h00

CIDADE DA GUATEMALA - O assassinato do pai. Um filho seduzido pelas gangues. A mulher torturada pela polícia. Ameaças de morte. Extorsão. O traficante que obriga a mover pacotes de cocaína. Assaltos brutais. Estupros. A violência tornou-se o maior flagelo da América Central. A epidemia de banditismo, muito mais do que a pobreza endêmica, conduz milhares de imigrantes em uma romaria perigosa em direção aos EUA. Sem dinheiro e carregando apenas uma mochila de roupas surradas nas costas, muitos ficam pelo caminho e sobrevivem graças à compaixão dos outros.

Na capital da Guatemala, histórias do êxodo centro-americano estão escondidas no subúrbio, em um sobrado coordenado pelo padre brasileiro Mauro Verzeletti. Até o início da semana, a Casa do Migrante acolhia 32 pessoas, a maioria de El Salvador, Honduras e Nicarágua. “Pobreza sempre existiu na região, mas o que aumentou mesmo o fluxo migratório foi a violência”, diz o padre. 

Segundo ele, o perfil do imigrante era de um jovem na faixa dos 20 anos que viajava sozinho e deixava tudo o que tinha nas mãos de traficantes e coiotes, que não pensavam duas vezes em abandoná-lo no meio do deserto sem dinheiro, água e comida. Hoje, pelo menos 30% dos que chegam trazem a família, incluindo crianças. Muitos são idosos ou grávidas que viajam em grupos, como as caravanas de miseráveis que cruzam a Guatemala e o México rumo à fronteira americana. 

“O crime atua muito melhor onde o Estado é fraco. E, em alguns países da América Central, o Estado perdeu o poder”, diz Verzeletti. “Quem decide fugir não suporta mais as extorsões. Os criminosos cobram por proteção, mas as pessoas não têm mais dinheiro para dar. Esta insegurança está acabando com os pequenos negócios e destruindo as economias da região.”

Na América Central, o século 20 foi marcado por intervenções militares dos EUA e golpes de Estado que nunca permitiram a consolidação de instituições. Nos anos 70 e 80, guerras civis atormentaram os quatro países ao norte da Costa Rica. Na Guatemala, foram 200 mil mortos em 36 anos de conflito. Em El Salvador, morreram 75 mil em 12 anos. A revolução nicaraguense dizimou 30 mil em 29 anos. A convulsão social também afetou Honduras, que serviu de base para o treinamento de contrarrevolucionários. 

Na época, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 44% dos guatemaltecos eram analfabetos e 7 em cada 10 hondurenhos viviam em estado de pobreza absoluta. O relatório anual do BID dizia ainda que metade da população da Nicarágua não tinha acesso a água potável e estimava que “um gato nos EUA comia em média mais carne do que um cidadão nicaraguense”. 

O resultado foi a primeira grande diáspora da América Central: mais de 2 milhões cruzaram a fronteira americana. Nos EUA, os jovens buscaram romper o isolamento social se juntando a gangues de rua, a maioria formadas por mexicanos já estabelecidos, como a Canton 14 e sua dissidência, o Barrio 18, de Los Angeles.

Nos anos 70, ser membro de um bando dava ao imigrante adolescente uma sensação de pertencimento e de rebeldia. O pesquisador Thomas Ward, da University of Southern California, autor de Gangsters Without Borders, descreve os primeiros jovens centro-americanos como metaleiros que vestiam jaquetas de couro preta, camisetas do Led Zeppelin e calças jeans apertadas. 

No tempo em que a cocaína começava a conquistar os EUA, o governo do presidente Ronald Reagan decidiu limpar a cidade de Los Angeles para os Jogos Olímpicos de 1984 - uma importante peça de propaganda no apagar das luzes da Guerra Fria. 

As prisões em massa tiraram das ruas vários líderes de gangues, principalmente negros, latinos e asiáticos. Na prática, o vácuo de poder criado desatou uma guerra por liderança que privilegiava as quadrilhas mais violentas. Uma delas era conhecida como Mara Salvatrucha (MS).

O grupo era formado por salvadorenhos, nenhum com mais de 18 anos, que passavam o dia fumando maconha. Alguns, segundo Ward, realizavam rituais satânicos enquanto cantavam músicas do Judas Priest. Aos poucos, a MS se impôs em violentos confrontos de rua. Na cadeia, seus membros se aliaram à poderosa máfia mexicana, conhecida como “La M”. Foi assim que a gangue incorporou o número 13, que era usado pelos mexicanos - M é a 13.ª letra do alfabeto. 

Como MS-13, nos anos 90, a gangue tornou-se transnacional. Usando uma mão de obra interminável de jovens imigrantes que fugiam das guerras civis na América Central, o grupo passou a ser um dos mais ativos e violentos dos EUA. Foi então que governo americano se viu em uma encruzilhada: por mais que quisesse se livrar dos arruaceiros, não podia deportar jovens salvadorenhos e guatemaltecos para zonas em conflito.

A solução veio com a paz assinada em 1992, em El Salvador, e em 1996, na Guatemala. Era o sinal que a Casa Branca esperava. Imediatamente, o presidente Bill Clinton iniciou um programa de deportação em massa. Criminosos eram colocados em aviões e despachados para a América Central. O problema é que, ao desembarcarem, encontravam países em crise e instituições falidas - ao alcance das mãos, apenas o arsenal herdado da guerra civil e soldados ociosos em busca de ganha-pão. 

Assim, ao tentar se livrar de um problema, os EUA exportaram a criminalidade e montaram uma bomba-relógio que está na origem do fluxo migratório atual. Hoje, Honduras, El Salvador e Guatemala estão entre os países mais violentos do mundo. Recentemente, ao drama se juntou a Nicarágua. A repressão aos protestos contra o presidente Daniel Ortega, nos últimos sete meses, deixou cerca de 500 mortos e expulsou 50 mil pessoas do país.

Apesar das evidências, segundo o cientista político Jonathan Hiskey, da Vanderbilt University, o governo americano ainda se recusa a aceitar a verdadeira razão da onda migratória. “Não é a pobreza. É a violência”, disse. Hiskey liderou um estudo sobre imigração publicado na última edição da revista Latin American Research Review. De acordo com ele, tanto Barack Obama quanto Donald Trump não conseguiram deter o fluxo de imigrantes porque erraram o diagnóstico. “No perfil social que fizemos, eles nos disseram que fogem do crime e da violência. As questões econômicas já não aparecem com tanta frequência.”

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Sonhos que acabam na Guatemala

Histórias de imigrantes que fogem da violência brutal, mas que, sem dinheiro para chegar aos EUA, ficam pelo caminho

Cristiano Dias, enviado especial à Cidade da Guatemala, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2018 | 05h00

Eles chegam aos poucos, assim que a noite cai. Entram abatidos em um sobrado da Zona 1, periferia da Cidade da Guatemala. Antes das 21 horas, todos têm de estar na cama. O toque de recolher é inevitável. Nos arredores, as ruas são lentamente tomadas pelo breu. Os poucos postes acesos emitem uma luz de gafieira, que deixa o ambiente ainda mais sombrio. Na semana anterior, as câmeras de segurança da Casa do Migrante, que acolhe os refugiados na capital, flagraram um jovem sendo colocado à força no porta-malas de um carro.

Eles vieram de El Salvador, Honduras e Nicarágua. Muitos estavam na caravana que seguiu para os EUA, mas ficaram pelo caminho por falta de dinheiro ou de saúde para seguir viagem. É o caso de Isabel Benítez Rapalo, de 42 anos – pai de família, apesar do nome. Ele vendia sorvetes em Puerto Cortés, Honduras, e chegou na boleia de um caminhão ao lado da mulher e dos quatro filhos – o caçula, de apenas 2 anos, estava doente e a família decidiu ficar na Guatemala. 

Rapalo faturava pouco mais de US$ 10 por dia em sua terra natal e mal conseguia sustentar a família. Mesmo ganhando um salário de fome, foi assaltado três vezes. Na última, em julho, levaram sua bicicleta, suas calças e sapatos – ele foi deixado nu, no meio da rua. Quando sentiu que a prática tinha virado rotina, parou de trabalhar. Assustado, raramente saía de casa. Rapalo conta que trabalho é o que não falta em Puerto Cortés – mas nenhum é legal. Paga-se bem, mas flerta-se com a cadeia. 

Em agosto, o mesmo bando que o assaltava lhe apresentou uma proposta: uma bolada de dinheiro para carregar um pacote de cocaína de um lado para o outro da cidade. Ao recusar, Rapalo assinou sua sentença de morte. Alertado por amigos de que tinha a cabeça a prêmio, decidiu fugir. “Eles estavam ameaçando até os meus filhos”, lembrou. “Não tenho dinheiro para chegar aos EUA. Por isso, aceito viver em qualquer lugar. Desde que não seja em Honduras.”

Repressão

 Ao lado de Rapalo, também sentados à mesa, outros dois relatos de violência, mas de origem diferente. Carlos Alberto González Hernández, de 56 anos, e sua mulher, Flor de María Estebán, de 53, trabalhavam no departamento de limpeza da prefeitura de Jinotepe, na Nicarágua, cidade de 30 mil habitantes a 40 quilômetros de Manágua. Carlos foi guerrilheiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), liderada pelo presidente Daniel Ortega. 

Em abril, Ortega tentou emplacar uma reforma da previdência. Bastante impopular, a medida levou o povo às ruas e os protestos se espalharam pelo país. O governo voltou atrás, mas já era tarde. As manifestações passaram a pedir a renúncia do presidente, há 12 anos no poder e reeleito para um contestado terceiro mandato, em 2016, com mais de 70% dos votos. À frente dos rebeldes estavam os estudantes, que montaram barricadas em vários pontos da Nicarágua. 

Como ex-guerrilheiro da FSLN, Carlos recebeu uma ordem de antigos companheiros: pegar em armas e desmantelar as barricadas que interrompiam a estrada para Manágua. Na prática, ele percebeu que sua missão era matar jovens desarmados. “Eu não só neguei como fui às barricadas ajudar os estudantes”, disse. 

Entrincheirados, os jovens estavam protegidos por pneus velhos, espingardas enferrujadas e bombas de contato. Carlos sabia que a luta era desigual. “Os paramilitares tinham fuzis M14, lançadores de granada, RPGs e franco-atiradores.” No domingo, 8 de julho, às 5 horas da manhã, ele escutou as sirenes do quartel dos bombeiros – onde trabalhava seu irmão – e os sinos da igreja. Era o aviso da população de que os soldados começariam o ataque. 

Às 10 horas, Carlos conta que recuperou uma metralhadora RPK, com a qual manteve a barricada de pé até as 14 horas. Às 15 horas, ele tomou um tiro no braço e deu ordem para que os jovens dispersassem. Às 16 horas, sem munição, fugiu. 

Carlos fala da guerra com a calma de um profissional da violência. Os próximos três meses ele passaria escondido em um apartamento de Manágua, fornecido por ONGs de defesa dos direitos humanos. 

Tortura

Mesmo enclausurado, a decisão de fugir só foi tomada depois que ele teve notícias da mulher. Flor havia levado comida para os rebeldes nas trincheiras e foi capturada assim que os militares dominaram Jinotepe. Presa, ela foi brutalmente torturada – os militares arrancaram suas unhas. “Eles queriam que eu dissesse onde meu marido estava, mas eu não sabia”, contou. “Na prisão, vi estudantes com testículos esmagados e mulheres grávidas sendo agredidas com chutes na barriga.” 

Assim que pisou fora da cadeia, Flor encontrou um emissário de Carlos, que havia organizado a fuga – a Costa Rica seria o destino mais fácil, mas a fronteira estava bem guardada, segundo ele. Com US$ 30 doados pelos ativistas, eles conseguiram subornar policiais na fronteira com Honduras e tomar um ônibus até a Guatemala. 

Carlos e Flor ainda sonham com os EUA, mas a falta de dinheiro torna a viagem impossível. Enquanto aguarda o pedido de asilo na Guatemala, o casal ainda tem esperança de trazer os dois filhos, de 30 e 22 anos, que permanecem escondidos na Nicarágua. “Sentimos falta deles. Mas, se voltarmos para a Nicarágua, eles nos matam”, disse Carlos.

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