Violentos confrontos entre islamistas e opositores deixam 2 mortos no Cairo

Crise política. Mais de cem pessoas ficam feridas em outro dia de manifestações contra os decretos presidenciais que deram superpoderes ao Executivo e contra a nova Constituição, aprovada às pressas, que reforça o caráter islâmico do Estado egípcio

CAIRO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h08

Manifestantes contra e a favor do presidente do Egito, Mohamed Morsi, armados com pedras, pedaços de madeira e coquetéis molotov, entraram em choque ontem diante do palácio presidencial, no Cairo. Duas pessoas morreram, ambas ligadas a grupos opositores, e 126 ficaram feridas. Logo depois, a crise política se agravou com o pedido de demissão de três assessores de Morsi.

Com as saídas de Seif Abdel Fattah, Ayman al-Sayyad e Amr al-Leithy, já são seis os integrantes da equipe presidencial que renunciaram desde a semana passada, quando o presidente Morsi promulgou uma série de decretos que o torna virtualmente imune ao Judiciário e impede que juízes interfiram na Assembleia Constituinte.

A política egípcia está dividida em dois campos opostos: islamistas e seculares. Grupos laicos, de esquerda, estudantes e nacionalistas acusam o governo da Irmandade Muçulmana - o primeiro eleito democraticamente no Egito - de tentar impor leis religiosas e retomar os poderes ditatoriais de Hosni Mubarak, deposto no início de 2011.

Em protesto, líderes da oposição e da comunidade cristã copta retiraram-se da câmara que formulava a nova Constituição. Os delegados que abandonaram a assembleia foram substituídos por políticos religiosos.

Sob forte pressão, Morsi afirmou que os decretos eram provisórios e tinham por objetivo proteger os trabalhos do painel constituinte. Para resolver o impasse e temendo que o Judiciário dissolvesse a assembleia, a comissão que vinha redigindo a Carta concluiu os trabalhos às pressas. O esboço do texto foi aprovado na segunda-feira e será levado a referendo no dia 15.

Pancadaria. Na terça-feira, no entanto, as manifestações continuaram. Mais de 100 mil pessoas foram às ruas do Cairo para protestar contra os excessos religiosos da nova Constituição, a falta de proteção dos direitos humanos - como liberdade das mulheres e de expressão - e os privilégios e autonomia das Forças Armadas em relação ao poder civil.

Os confrontos de ontem começaram quando milhares de partidários de Morsi, a maioria filiados à Irmandade Muçulmana, marcharam até uma área em frente ao palácio presidencial, onde cerca de 300 opositores estavam acampados em protesto contra os decretos feitos pelo presidente.

Após serem expulsos à força do local, os opositores de Morsi receberam reforço de centenas de estudantes, que começaram a lançar coquetéis molotov contra os simpatizantes do presidente, que responderam com pedras e pedaços de pau.

Jornalistas e blogueiros que registravam os protestos foram agredidos por simpatizantes do presidente. Imagens postadas ontem na internet mostraram a perseguição a repórteres e fotógrafos nas proximidades do palácio presidencial. A pancadaria seguiu até a chegada da polícia antidistúrbio.

Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz de 2005 e um dos principais líderes da oposição, acusou ontem o presidente de orquestrar um "ataque deliberado" contra manifestações pacíficas. "Na minha opinião, isso é o fim de qualquer legitimidade que o regime ainda tinha", disse ElBaradei. "A revolução não foi feita para isso. Foi feita por princípios, pela liberdade e pela democracia."

Pedido de calma. Ontem, dentro do palácio, o vice-presidente do Egito, Mahmoud Mekki, afirmou que o referendo sobre a nova Constituição será realizado no dia 15, como planejado, apesar dos protestos. "Há real vontade política de responder às demandas do público", afirmou Mekki. Ele calcula que os artigos em disputa sejam cerca de 15 de um total de 234.

De acordo com o vice-presidente, emendas à Constituição poderiam ser propostas pelo novo Parlamento, que será eleito após o referendo. "A porta para o diálogo está aberta para aqueles que se opõem ao esboço da Constituição."

O premiê Hisham Kandil pediu calma à população para que o processo de diálogo político possa ter alguma chance de sucesso. O primeiro-ministro egípcio também pediu a todos os manifestantes que se retirassem da frente do palácio presidencial. / AP, NYT e REUTERS

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