Adam Dean/The New York Times
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Vírus avança mais fácil em mundo de migrantes

Coronavírus se espalhou primeiro entre viajantes internacionais: turistas, peregrinos, conferencistas e membros da elite empresarial; mas quase 200 milhões de trabalhadores migrantes também viajam pelas fronteiras nacionais

Hannah Beech / The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 05h00

BANGKOK - A família em Mianmar dependia dele. Mas Zaw Win Tun, um dos cerca de 4 milhões de trabalhadores migrantes na Tailândia, perdeu o emprego numa loja de brinquedos de Bangkok quando a cidade entrou em isolamento social por causa do coronavírus.

Com pouca esperança de encontrar um novo emprego, Zaw Win Tun, de 24 anos, juntou-se à multidão de trabalhadores que correram de volta para casa, viajando em carros, aviões e ônibus lotados, para chegar à sua cidade natal, Kyaukme, no norte de Mianmar.

A febre começou na manhã do dia seguinte ao seu retorno. O teste para o novo coronavírus deu positivo.

O coronavírus se espalhou primeiro entre viajantes internacionais: turistas, peregrinos, conferencistas e membros da elite empresarial. Mas quase 200 milhões de trabalhadores migrantes também viajam pelas fronteiras nacionais, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). E outros 760 milhões se deslocam dentro de seus países, mais de 40 milhões somente na Índia.

Sem direitos básicos e desamparados em lugares desconhecidos, os trabalhadores migrantes geralmente são os primeiros a sofrer o impacto das crises econômicas. Agora, à medida que a covid-19 se espalha pelo mundo, eles são não apenas vítimas, mas também vetores, levando a epidemia a aldeias mal preparadas para lidar com uma crise de saúde.

“Quando o vírus ataca pessoas vulneráveis como eu, sinto que não tem ajuda para nós”, disse Zaw Win Tun em sua cama de hospital.

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No fim do mês passado, o governo de Mianmar disse que fecharia a fronteira com a Tailândia para conter a propagação do vírus. O bloqueio proposto, no entanto, teve o efeito contrário, pois os migrantes, em pânico, voltaram correndo para casa. Em um dos postos de fronteira, 30 mil pessoas passaram num único dia, de acordo com grupos de direitos humanos.

O mesmo aconteceu no Afeganistão, que compartilha uma longa e porosa fronteira com o Irã. Com a economia do Irã entrando em colapso devido ao avanço precoce do coronavírus, cerca de 15 mil trabalhadores afegãos voltaram para casa por dia, espalhando o vírus por todo o país.

Autoridades do governo, assim como rebeldes do Taleban que controlam algumas regiões do país, tentaram improvisar maneiras de rastrear o contágio. Naqibullah Faiq, governador da Província de Faryab, no norte do Afeganistão, ordenou uma investigação sobre o primeiro migrante que retornou do Irã trazendo o vírus consigo. Os resultados foram preocupantes. “Se você for seguindo a corrente”, disse Faiq, “vai ver que ela chega a mil pessoas”.

Mesmo que essas comunidades tenham sido sustentadas pelas remessas dos trabalhadores migrantes, elas receberam com desconfiança os que voltaram potencialmente infectados.

Na Índia, quando o primeiro-ministro Narendra Modi anunciou um bloqueio iminente em todo o país, no mês passado, centenas de milhares de migrantes internos correram para voltar para casa, enquanto seus empregos evaporavam da noite para o dia.

Anil Singh soube do bloqueio na televisão e, então, enfiou os cobertores numa mochila e encheu três sacos plásticos com as roupas dos filhos. Durante três dias, a família de cinco pessoas caminhou e pegou carona em caminhões para completar uma viagem de 427 km até o Estado de Madhya Pradesh, no centro do país.

Ao longo do caminho, eles foram forçados a se aglomerar com centenas de outras pessoas por horas e horas, enquanto a polícia inspecionava as longas filas de migrantes que se formaram nos postos de controle. Não teve distanciamento social.

Quando Singh e sua família finalmente chegaram à aldeia de Damoh, as indignidades continuaram. Velhos amigos os evitavam, dizendo que eles deveriam se abrigar nas cabanas das lavouras nas redondezas, e não na aldeia.

“Quando os vizinhos passam na minha casa, eles gritam: ‘Vocês estão espalhando doença!’”, disse Singh, de 36 anos. “Antes, eles nos respeitavam por trabalhar na cidade. Agora, isso virou uma maldição para nós."

No Estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia, os migrantes que voltaram para casa foram forçados a se ajoelhar enquanto as autoridades usavam mangueiras para pulverizá-los com desinfetante corrosivo. Mais de uma dúzia morreu no caos do bloqueio.

Nas Filipinas, onde mais de 10% da população trabalha no exterior, a maioria dos migrantes não passou por exames para detectar o coronavírus, mesmo que viesse de locais com surtos notificados.

Quase 4,5 mil funcionários de navios de cruzeiro retornaram às Filipinas, alguns de navios coalhados de vírus. Mas só os marinheiros que apresentavam sintomas foram testados, disse Joanna Concepcion, presidente da Migrante International, organização que trabalha para proteger os direitos dos trabalhadores estrangeiros.

“Muitos temem que sejam portadores e estejam trazendo o vírus para suas famílias”, disse Concepcion.

Pelo menos 525 trabalhadores filipinos contraíram a doença no exterior, de acordo com o Departamento de Relações Exteriores. Cerca de 50 morreram. As aglomerações em que vivem e trabalham os migrantes servem como criadouros para o contágio.

 

Em Cingapura, canteiros de obras e dormitórios para trabalhadores estrangeiros se tornaram focos do coronavírus, com mais de 400 pessoas infectadas. O maior conjunto de casos se encontra num desses alojamentos, gerando a preocupação de que Cingapura, embora tenha sido elogiada por sua estratégia de contenção do vírus desde o início, esteja vendo a doença deteriorar algumas de suas comunidades mais pobres.

O governo reagiu colocando os migrantes em quarentena em quatro dormitórios que podem acomodar cerca de 50 mil pessoas. As condições são terríveis, com uma dúzia de pessoas num mesmo quarto, compartilhando banheiros quase sempre imundos.

Ao contrário de muitos outros países, Cingapura, uma cidade-estado insular, não depende de trabalhadores ilegais. Mesmo com salários baixos, os mais de 1 milhão de trabalhadores migrantes que trabalham no país - uma nação de 5,5 milhões de habitantes - são legais e, teoricamente, têm os mesmos direitos trabalhistas básicos dos cidadãos de Cingapura. Os que estão em quarentena nos dormitórios recebem refeições, embora não esteja claro quem pagará a conta.

No entanto, isolar tantas pessoas em locais tão apertados pode facilitar a rápida transmissão de doenças, exatamente como aconteceu em navios de cruzeiro, alertaram grupos de direitos humanos.

“A quarentena de pessoas em massa, apertadas feito sardinhas nesses alojamentos, é potencialmente sacrificar esses trabalhadores estrangeiros para proteger aqueles que estão do lado de fora da barreira”, disse Alex Au, vice-presidente do Transient Workers Count Too (algo como “trabalhadores transitórios também contam”, em tradução livre), um grupo de direitos trabalhistas. “É isso que queremos fazer como sociedade?"

Alex Au disse que o coronavírus quase certamente dará força às iniciativas de utilizar a automação para substituir certos empregos de baixa renda em Cingapura. A cidade-estado tem feito experiências, por exemplo, com transporte público sem motorista.

Mas a maioria dos países não tem os recursos de um lugar como Cingapura, que está entre os mais ricos do mundo. Sem oportunidades adequadas na terra natal, os migrantes ainda irão para onde estão os empregos, mesmo sob o risco de contrair doenças.

Rakesh Kumar, trabalhador da construção civil em Nova Délhi, disse que, na viagem de volta para sua casa em Uttar Pradesh, o que mais o preocupava era sua próxima refeição, não um vírus invisível que podia vir junto com o outro migrante esmagado junto com ele dentro do ônibus.

“Agora estamos vivendo uma situação em que centenas de milhares de pessoas podem ir para a cama com fome”, disse ele. “Os ricos sempre se salvam, mas as doenças sempre atingem os pobres e acabam com suas vidas." / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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