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Vírus chega à Venezuela por trilhas ilegais 

Com o sistema de saúde em colapso na maior parte do país, os vizinhos do Brasil apertam as medidas de prevenção para não sofrerem o impacto da infecção da variante

João Renato Jácome / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

RIO BRANCO - Os venezuelanos que vivem na cidade de Santa Elena de Uarén, em Gran Sebana, na Venezuela, temem a chegada da variante brasileira do novo coronavírus à região. A cidade, com pouco mais de 29 mil habitantes, fica a 15 quilômetros de Pararaima, na fronteira com Roraima.

Com o sistema de saúde em colapso na maior parte do país, e o alerta dos cientistas sobre o potencial de letalidade da variante amazônica P1, os vizinhos do Brasil apertam as medidas de prevenção para não sofrerem o impacto da infecção da variante.

No ano passado, quando as infecções por coronavírus aumentaram, a Venezuela foi o primeiro país do continente a decretar quarentena nacional e mandar fechar as fronteiras, impedindo muitos moradores de cruzar para fazer compras ou trabalhar no Brasil. As restrições aumentaram o fluxo de migratório por trilhas clandestinas.

Mesmo com as medidas aplicadas pelo governo venezuelano, dezenas de moradores de Santa Elena cortam a fronteira diariamente para o lado brasileiro. Para isso, eles utilizam as trilhas sem fiscalização, seja da Guarda Nacional Bolivariana, ou mesmo da Polícia Federal do Brasil ou do Exército.

Com isso, os moradores que permanecem em Santa Elena de Uarén, para evitar o contágio da covid-19, começam a temer a chegada da nova variante encontrada no Amazonas. É o que comenta a administradora de empresas Génesis Mariannys, de 30 anos, que está internada há 13 dias em um hospital da cidade, com o coronavírus.

“A preocupação que temos aqui é a mesma que imagino ser de todo o mundo, essa variante da covid é muito mais forte, e agora a população jovem está sendo mais atingida. É o que temos visto aqui. Nos preocupa mais porque há países mais avançados na questão de saúde, mas aqui, não é tão avançado, então precisamos ter muito cuidado”, comenta.

Segundo Mariannys, que está com 60% dos pulmões comprometidos, a população não atende às recomendações preventivas das autoridades, o que agrava a situação. Isso causou, na avaliação dela, o aumento no número de casos da doença na região.

“Faltam muitos recursos para atender esse tipo de doença aqui na Venezuela. Eu, por exemplo, acredito que peguei covid na rua. As pessoas vivem uma vida normal aqui.”

Especialistas estimam que a cepa brasileira chegue à Venezuela em abril. O temor diante da nova tipagem viral se espalha por todo o país, desde os pequenos vilarejos até a capital, Caracas. “Em um mês, essa variante estará em plena atividade de transmissão em nosso país”, avalia o médico Rafael Orihuela, especialista em saúde pública.

O virologista Hector Rangel, pesquisador do Centro de Microbiologia e Biologia Celular do Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica (IVIC), destacou que quase 60 casos suspeitos já foram registrados no país e estão sendo analisados. “As novas variantes aparentam uma melhor capacidade de multiplicação, de infecção. É maior do que a mutação anterior. Essa variação tem mais facilidade de infectar as células”, disse.

A Venezuela tem 147 mil casos confirmados, segundo a Universidade Johns Hopkins, com 1.459 mortes

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