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Vírus divide a Europa

Endividamento é abissal, em uma época em que estes países estão condenados a tomar emprestado para sobreviver

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2020 | 09h53

É uma ideia reconfortante: diante das grandes tormentas das guerras ou crises sanitárias, o fosso que separa os ricos dos pobres, as “cigarras” das “formigas”, os desmiolados dos prudentes, desaparece. “A união sagrada” tem efeitos milagrosos. Cada um ama cada um, as lebres esperam as tartarugas, e os lobos acompanham os cordeiros.

Sim. É uma ideia incrível. Seu defeito é que a ideia é falsa, a ponto de poder ser substituída por seu contrário: no caso de uma catástrofe transnacional, os musculosos se tornam cada vez mais fortes e os magros emagrecem um pouco mais depressa. A União Europeia é testemunha disso. Já é possível distinguir duas Europas, a do “Clube Med” (Itália, Grécia, Espanha, Portugal) e a dos países sérios. À frente, a Alemanha. Os ataques da covid-19, longe de reduzir as diferenças entre estas duas Europas, as aprofunda. Se é razoável dizer que o vírus é um desastre para a França ou para a Alemanha, que termo desconhecido poderíamos aplicar aos países do norte?

A economia europeia baseia-se em grande parte no turismo, cuja torneira foi fechada. O endividamento é abissal, em uma época em que estes países estão condenados a tomar emprestado para sobreviver. A Espanha toma empréstimos a um juro quatro vezes maior desde o início da crise sanitária. Portugal deverá multiplicá-lo por três e a Itália por dois. O Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) de Paris fez o cálculo: se a Itália tomar emprestados ¤ 250 bilhões ao ano, um aumento de um ponto do seu juro representará um custo de ¤ 2,5 bilhões a mais, ou seja, um terço dos gastos anuais com a saúde. 

Evidentemente, qualquer cidadão é capaz de constatar isso: menos somos ricos, mais pagamos. Os pobres conhecem esta lei de ferro. O Banco Mundial e a União Europeia também a conhecem.

A Itália, que mal saiu de uma crise política e sangrou quase até a morte por causa do vírus, enfrenta tempos muito difíceis. A Grécia, depois de dez anos de uma austeridade terrível, mal pôs a cabeça fora da água, e o coronavírus já a prolonga. Portugal se encontra na mesma situação: há dez anos o país havia chegado ao fundo do abismo. Conseguiu reerguer-se graças ao turismo e aos aposentados ingleses. E agora está em situação difícil novamente.

A Espanha acumula as desgraças: 24.824 mortes, afirmam dados oficiais. “Muito mais, os senhores mentem, a sua gestão tem sido catastrófica”, disse a oposição. Máscaras com defeito, a falta de milhares de testes, escamoteação na questão do confinamento (em suma, igual à França, só que pior).

O governo de Pedro Sánchez está sendo rejeitado por 66% dos espanhóis. Mas ele se mantém: ninguém da oposição tem estatura suficiente. Diante do bloco dos europeus do sul, está o bloco dos países do norte, “dos sovinas”. A Alemanha em primeiro lugar, que está se segurando, e cuja gestão da crise sanitária, exemplar, é aplaudida até pela oposição. E os outros países do norte, acostumados à prosperidade, às economias e à disciplina, países modelos. “O estranho”, ou “não lógico”, é que a maior parte destes países ricos e rigorosos apresenta números de infectados e de óbitos muito menores do que os países do sul. A senhora Angela Merkel, que há um ano estava cercada de ciumeiras até mesmo no interior do seu partido, a CDU, de bocas escancaradas e dentes afiados, de repente volta ao centro do jogo: em épocas difíceis, há momentos em que vale mais jogar para defender o “rei” com uma “torre” calma e sólida, e não uns “peões”.

E a União Europeia? Emmanuel Macron continua a desejar uma Europa unida, e segue no mesmo passo, mas até agora é o único a acariciar esta ideia. E o que se pode fazer com um exército de um soldado só? Várias personalidades pediram um “Plano Marshall” em favor dos países do sul. Vale lembrar que o que foi o plano americano Marshall. A Europa, após a guerra de 1939-45, estava reduzida a um monte de escombros. Ela foi salva por este plano e pôde reconstruir suas casas e suas máquinas, ingressando em um período de rápido crescimento, denominado “os 30 anos gloriosos”.

O primeiro-ministro da Espanha pediu a criação de uma espécie de Plano Marshall. O comissário das Finanças europeu, o excelente Thierry Breton, um francês, teve a mesma ideia. Por enquanto, reina o silêncio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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