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Vírus é o inimigo comum

Os ataques do governo federal à China causam atrasos no fornecimento dos insumos

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2021 | 00h00

O presidente Jair Bolsonaro insinuou que o coronavírus é uma arma bacteriológica destinada a impulsionar o crescimento econômico chinês. A acusação é contrária às evidências. Mesmo partindo de um líder desacreditado internacionalmente, a afronta é perturbadora e temerária, e traz prejuízos ao Brasil

Estudo publicado pela revista Nature no dia 17 de março de 2020, intitulado The proximal origin of SARS-CoV-2, descarta a origem desse vírus em laboratório, afirmando que, pelo sequenciamento genômico, sua origem é animal. 

Os autores são imunologistas e microbiólogos de institutos e universidades da Califórnia; de Edimburgo, na Escócia; de Columbia, em Nova York; de Sydney, na Austrália e de New Orleans. 

Depois de participar de uma missão da Organização Mundial de Saúde (OMS) com 17 cientistas na China em fevereiro, o dinamarquês Ben Embarek, especialista em transmissão de doenças de animais para humanos, também descartou que o vírus tenha saído de um laboratório, e reiterou que sua origem provável são morcegos. No início da pandemia, o presidente Xi Jinping a classificou como “um teste para o sistema da China”. Em 2019, o PIB chinês cresceu 6,1%. A projeção era de crescimento igual em 2020. No entanto, com a pandemia, esse índice caiu para 2,3%, o pior em mais de quatro décadas, desde que a China abriu sua economia.

O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse que os ataques do governo federal à China causam atrasos no fornecimento dos insumos. Isso depois de o instituto ter de suspender pela segunda vez a produção da Coronavac por esse motivo.

“Se a China quisesse, poderia mandar 20 milhões de doses para o Brasil”, me disse Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, profundo conhecedor da mentalidade chinesa.

Compare com o tratamento dispensado à Índia, rival regional da China. Há menos de um ano, os soldados dos dois países se enfrentavam na fronteira. Desde então, os dois países têm procurado reduzir as tensões. A China forneceu nos últimos dias 5 mil respiradores e 20 mil geradores de oxigênio para a Índia. Empresas chinesas estão trabalhando ininterruptamente para fabricar mais 40 mil unidades para ajudar a Índia a conter o seu surto, comparável hoje no mundo só ao do Brasil.

“O vírus é o inimigo comum da humanidade”, disse o porta-voz da chancelaria chinesa, Wang Wenbin, ao comentar as declarações de Bolsonaro. “A tarefa urgente agora é que todos os países se unam na cooperação e se esforcem por uma vitória rápida e completa sobre a epidemia. Nos opomos firmemente a qualquer tentativa de politizar e estigmatizar o vírus.”

Os chineses não fazem alarde quando querem dar uma lição em um país. Apenas criam fatos consumados no terreno. Pergunte aos australianos. Em abril do ano passado, o primeiro-ministro Scott Morrison pressionou por uma investigação internacional sobre as origens do vírus na China, com inspetores da OMS com as mesmas prerrogativas que os da Organização para a Proibição de Armas Químicas

A partir daí o governo chinês passou a orientar os importadores a restringir a compra de cevada, algodão, carne bovina, vinho, lagostas, carvão, cobre e madeira da Austrália. A cevada australiana foi sobretaxada para 80,5%, o nível mais alto permitido, depois de um processo por dumping. Frigoríficos australianos perderam licença de exportação para a China.

O vinho australiano recebeu tarifas entre 116% e 218%. A China baniu o carvão australiano e começou a substituí-lo pelo colombiano e sul-africano. Sessenta navios australianos estão parados na costa chinesa sem autorização para descarregar seu carvão.

“O Brasil quer se tornar a próxima Austrália?”, perguntou-me Tang. A Austrália ao menos tem disputas territoriais com os chineses no Mar do Sul da China. E o Brasil?

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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