Juan Ignacio Roncoroni / EFE
Juan Ignacio Roncoroni / EFE

Vírus mata 400 mil no mundo e América Latina hesita na luta contra a pandemia

Mesmo países que se planejaram para combater a pandemia, como Chile e Peru, enfrentam aumento no número de casos e de mortes

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 05h00

BUENOS AIRES - Mais de 400 mil pessoas morreram de covid-19 até ontem em todo o mundo, segundo balanço da universidade americana Johns Hopkins, com o número de casos aumentando na América Latina e sem uma perspectiva de chegada ao pico, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O chefe de emergências da OMS, Mike Ryan, afirmou na semana passada que é difícil prever se o pior está por vir nas América do Sul e Central.

Durante algum tempo no início da pandemia, quando a América Latina era mais espectadora do surto ocorrendo na China, depois na Europa e em seguida nos Estados Unidos, havia esperança de que, quando o coronavírus chegasse ao continente, seria diferente. Semanas depois, mais de um milhão de pessoas estão infectadas, dezenas de milhares morreram e aquelas esperanças desvaneceram.

A doença tem sido um desastre no Brasil, que hoje está em segundo lugar, depois dos Estados Unidos, em casos confirmados, com mais de 31 mil mortos. O Peru tem o dobro do número de infecções registrado na China. O México já registrou mais de 10 mil mortes. No Chile, as autoridades alertaram que o sistema hospitalar em Santiago está no limite da capacidade de atendimento. 

Mesmo na Argentina, um dos primeiros países a tomar medidas de contenção na América Latina, o número de casos aumentou nas últimas dias. O país registrou 929 novas infecções no fim de semana e prorrogou até 28 de junho o isolamento social obrigatório em Buenos Aires, tanto a capital quanto a Província, e em algumas outras partes do país.

Os esforços da América Latina para deter a doença foram arruinados por um elenco familiar de inimigos. Pobreza, desigualdade, corrupção, pouca confiança nas instituições – muitos problemas sociais que existiam antes da pandemia hoje são amplificados por ela. 

Países que tentaram impor bloqueios totais não conseguem mantê-los por muito tempo à medida que a fome aumenta, a desinformação se propaga e a desconfiança cresce.

“A crise está interagindo com problemas estruturais que a América Latina enfrenta há muito tempo e esses problemas estão exacerbando o efeito deste abalo na saúde”, afirmou Luis Felipe López-Calva, diretor para a América Latina do Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU).

Apesar da diversidade das estratégias – das medidas draconianas no Peru ao laissez-faire no Brasil – muitos países acabaram no mesmo lugar: o número de casos da doença disparou, com pouca capacidade política ou institucional para achatar a curva.

Como a região chegou a este ponto é um exemplo das dificuldades para controlar uma epidemia no mundo em desenvolvimento. Medidas de distanciamento social e isolamento – que precisam vigorar durante semanas para terem algum efeito – simplesmente não foram mantidas em países onde as pessoas vivem aglomeradas nas favelas e precisam sair diariamente para trabalhar.

“Aqui as pessoas estão chamando isto de paradoxo peruano”, disse América Arias Antón, diretor da Action Against Hunger (Ação contra a fome) em Lima. “Medidas apropriadas para o país inapropriado.”

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Para as políticas de contenção terem sucesso, afirmam os analistas, elas necessitam de apoio público e uma ajuda robusta para os mais pobres. Mas em grande parte da região faltam os dois elementos. 

No Brasil, a pequena ajuda oferecida pelo governo, de R$ 600 por mês para os trabalhadores informais, é insuficiente ou bloqueada por um processo de admissão inescrutável. O Peru tem pago às pessoas pobres 650 soles (R$ 950). Muitos trabalhadores ainda precisam deixar suas casas para se sustentar. Agora, à medida que se observa uma exaustão depois de 10 semanas de isolamento, a confiança nas políticas e nas autoridades de governo vem caindo. 

Muitos países, sem nem ao menos terem chegado ao pico da pandemia, começam a ensaiar uma reabertura, caso do México e do próprio Brasil. 

“Ainda não é tempo de relaxar as restrições ou reduzir estratégias preventivas”, afirmou Clarissa Etienne, diretora da Organização Pan-americana de Saúde. “É preciso permanecer forte e vigilante e implementar medidas agressivas e comprovadas de saúde pública”, afirmou a diretora. / THE W. POST e AFP

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