Hector Retamal/AFP
Hector Retamal/AFP

Vírus na China pode sobreviver à epidemia e desperta o temor com a privacidade

Software de rastreamento do vírus usado pelo governo coleta informações como dados de localização de pessoas em centenas de cidades chinesas

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 03h00

No auge da epidemia de coronavírus na China, as autoridades rapidamente utilizaram os modernos aparelhos nos bolsos de todas as pessoas, ou seja, seus smartphones, para identificar e isolar pessoas que poderiam estar propagando a doença.

Meses depois e as estatísticas oficiais chinesas sugerem que o pior já passou, mas os aplicativos de monitoramento do governo não desapareceram. Pelo contrário, furtivamente vêm se tornando um elemento permanente da vida cotidiana com potencial para ser usado de maneira invasiva e preocupante.

Embora a tecnologia tenha indubitavelmente ajudado muitos trabalhadores e empregadores a voltarem à vida normal, ela vem despertando preocupação na China, onde as pessoas querem preservar cada vez mais a sua privacidade digital. Empresas e agências governamentais têm um histórico polêmico na manutenção de informações pessoais a salvo de vazamentos e de hackers. As autoridades também têm uma visão mais ampla quanto ao uso de recursos de vigilância de alta tecnologia em nome do bem-estar público.

O software de rastreamento do vírus usado pelo governo coleta informações como dados de localização de pessoas em centenas de cidades chinesas. Mas as autoridades estabeleceram poucos limites quanto à maneira que os dados devem ser utilizados. E agora, em alguns lugares, os dirigentes estão adicionando a seus aplicativos novos recursos, esperando que o software perdure e seja usado mais do que apenas como uma medida de emergência.

Zhou Jiangyong, secretário do Partido Comunista da região de Hangzhou, um hub de tecnologia, disse que a aplicativo da cidade deve ser “um guardião íntimo de saúde” para os moradores, e usado com frequência, “tão amado que você não consegue se separar dele”, segundo o anúncio oficial.

Governos em todo o mundo vêm tentando equilibrar saúde pública e privacidade pessoal à medida que adotam todos os esforços para proteger a população contra o vírus. Na China, contudo, a preocupação não é apenas com a bisbilhotice potencial.

Os dirigentes do país há muito tempo desejavam aproveitar a vasta coleção de informações digitais para governar sua extensa, e às vezes rebelde, nação de maneira mais eficaz. Mas quando os sistemas de computação têm tanto poder sobre a vida das pessoas, os bugs de software e dados imprecisos podem ter grandes consequências no mundo real. Mas está muito claro que os indivíduos não ficam tranquilos com a possibilidade de o governo ter tanto conhecimento a seu respeito, mesmo quando o objetivo é a eficiência e a conveniência.

“A prevenção e o controle da epidemia precisam do apoio da tecnologia do big data, mas isto não significa que agências e indivíduos colecionem aleatoriamente dados dos cidadãos em nome da prevenção e do controle”, afirmou Li Sihui, pesquisador da universidade de Ciência e Tecnologia Huazhong, em Wuhan.

Na China, as pessoas se inscrevem num sistema de rastreamento do vírus fornecendo suas informações pessoais, viagens recentes e estado de saúde numa série de aplicativos. O software utiliza essas informações e outros dados para atribuir um código em cores – verde, amarelo ou vermelho, indicando se o portador representa um risco de infecção. Funcionários na frente de estações de metrô, escritórios e centros de compras impedem a entrada de qualquer pessoa sem o código verde.

As autoridades nunca explicaram em detalhe como o sistema decide a cor do código, o que deixa atônitas as pessoas que receberam um código vermelho ou amarelo sem saber a razão. Em março, o The New York Times reportou que um software com o código de saúde que é amplamente usado coletou dados de localização e ao que parece os enviou para a polícia, mas não se sabe como a informação foi usada.

Em Hangzhou, onde o sistema foi implantado pela primeira vez, as autoridades vêm procurando expandir esse código de saúde para classificar as pessoas num “índice de saúde pessoal”, de acordo com postagem na semana passada numa conta de mídia social oficial. Mas um gráfico na postagem mostra que os usuários recebem notas de 0 a 100 baseadas no número de horas de sono, quantas providências tomaram, o quanto eles fumam e bebem e outras medidas não especificadas.

A reação contrária foi rápida. “Ele não é uma violação descarada da privacidade ao monitorar e discriminar pessoas não saudáveis?”, escreveu o escritor Wang Xin na plataforma social Weibo, onde ele possui 2,5 milhões de seguidores.

As cidades chinesas agora vêm tentando maneiras diferentes de manter os moradores grudados em seus aplicativos ligados ao vírus. Xangai pretende que seu aplicativo se transforme em um assistente digital para acessar serviços locais de todos os tipos, não só os médicos. Na cidade de Xining, mais ao interior, o software desbloqueia cupons para lojas locais como uma maneira de impulsionar a economia.

Em Hangzhou, em abril, as autoridades passaram a ligar o aplicativo da cidade a registros médicos dos cidadãos, o que permite aos moradores marcarem consultas nos hospitais usando o aplicativo. O documento do governo municipal também delineia situações em que o código das pessoas pode ser escaneado para se receber uma leitura da sua saúde de modo geral, quando o cidadão tem uma consulta com um médico, por exemplo. Ou quando um empregado é avaliado para um futuro emprego, como o de motorista, que exige boa condição física. E também para o monitoramento no caso de uma grande aglomeração de pessoas.

As seguradoras podem aumentar a classificação das pessoas com códigos vermelho ou amarelo. E os empregadores podem recusar um candidato a emprego ou uma promoção.

O órgão regulador da China emitiu em fevereiro diretrizes impedindo que informação pessoal coletada para combater a epidemia seja usada para outras finalidades. Mas não está claro se a mesma rigidez se aplica aos aplicativos como o de Hangzhou, que foi criado para combater o vírus, mas depois se transformou num aplicativo mais geral.

Em um condado na província de Zhejiang, da qual Hangzhou é a capital, as autoridades vêm ampliando o conceito do código de saúde para além da saúde pública, indicando até onde este experimento no controle social digitalizado pode levar.

Recentemente, dirigentes do Partido Comunista em Tiantai, próximo da cidade de Taizhou, decidiram desenvolver uma ferramenta separada que chamaram de “código de saúde de honestidade”, como disse Qiu Yinwei, vice diretor de operações da localidade.

O código representa o grau de integridade e diligência dos membros do partido na consecução dos seus trabalhos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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