VISÃO GLOBAL: Novas dinastias na república

Linhagens políticas americanas contemporâneas abalam os valores elementares da democracia do país em ano eleitoral

WALTER RODGERS, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2012 | 03h04

Mais uma vez, as principais dinastias políticas dos Estados Unidos estão exibindo o brasão da família em um novo ano eleitoral. Em Massachusetts, um outro Kennedy está à procura de seu espaço no Congresso. Desta vez é o democrata Joseph P. Kennedy III, neto de Robert F. Kennedy, que espera ficar com a vaga do deputado Barney Frank, prestes a se aposentar. "Tenho muito orgulho do histórico de minha família, que sempre atuou na área pública para servir à comunidade e ao país", disse o jovem Kennedy.

Não duvido do seu desejo de servir ao público, mas ele também se está valendo do sobrenome da família - e das possibilidades de arrecadação, dos poderes e dos privilégios que o acompanham. Não foi isso que os pais fundadores vislumbraram para a nova república.

Enquanto isso, no Texas e na Flórida, a família Bush está usando sua influência na tentativa de encerrar logo as desgastantes primárias republicanas. É hora de o "partido se unir em seu apoio" a Mitt Romney, diz o ex-presidente George H. Bush. Sua mulher, Barbara - que se referia ao filho, George W. Bush como "o escolhido" - antes mesmo de ele ser eleito presidente (em 2001) - gravou um telefonema automático para a campanha de Romney. Jeb Bush, outro filho do casal e ex-governador da Flórida, também manifestou seu apoio a Romney. (Uma pergunta razoável: se Romney perder para Obama, será que Jeb se candidatará em 2016? Ele diz sonhar com o cargo desde que era criança).

Os Estados Unidos já tiveram suas dinastias políticas: os Adams no começo e, em tempos mais modernos, os Browns, na Califórnia; os Cuomos, em Nova York; os Daleys, em Chicago; Ron Paul e seu filho Rand, atualmente senador de Kentucky; para não falar em Romney, cujo pai, George, era governador.

Mas, nos últimos 50 anos, as duas famílias mais poderosas foram sem dúvida os Bushes e os Kennedys. Elas partilham as profundas raízes na Nova Inglaterra e, aparentemente, a ideia de terem o direito de ocupar a Casa Branca.

Legado. O gosto dos Kennedys pela prerrogativa dinástica foi às vezes desavergonhado. O senador Robert Kennedy desafiou um presidente do próprio partido na tentativa de ficar com a candidatura democrata, tentando recapturar o legado perdido do irmão John e reacender o mito de Camelot - podemos estabelecer paralelos com o ex-presidente Bush filho e sua tentativa de concluir a guerra do pai contra o Iraque de Saddam Hussein.

Mesmo depois de os Kennedys terem sido alvo de dois assassinatos, as ambições da família não foram abaladas. O irmão Edward tentou (sem sucesso) concorrer com o presidente do seu partido, o democrata Jimmy Carter. A crença da família de que a Casa Branca lhe pertencia era tão forte que um Teddy derrotado se recusou a cumprimentar o presidente Carter na convenção democrata de 1980.

O mais novo dos irmãos Kennedy nunca chegou ao Salão Oval, mas ajudou Barack Obama a chegar lá, apadrinhando com a sobrinha Caroline a candidatura de Obama quando este disputava as primárias com Hillary Clinton (de uma dinastia aspirante).

Esta prática de ambição hereditária e de realeza doméstica trai a premissa básica da Revolução Americana, "todos os homens são criados iguais".

A derrota do presidente John Quincy Adams para Andrew Jackson deu cabo de boa parte da fé americana inicial nas famílias governantes, e sucessivas ondas de imigrantes tornaram tal ideia uma piada.

'Famílias reais'. Os europeus passaram séculos livrando-se de reis e czares, às vezes à custa de muito sangue. Mas, nos últimos 50 anos, tivemos de suportar alegações de estupro, homicídio, abuso de drogas, infidelidade e alcoolismo nas nossas "famílias reais", ignorando tudo isso com a suposição medieval de que aqueles vindos de linhagens melhores estão de alguma maneira acima das críticas e da lei.

E, como reis do passado, a nobreza de hoje busca manter seu poder e posição distribuindo presentes a seus defensores, seus amigos e parentes, sejam isenções fiscais ou cargos públicos. Para seu próprio detrimento, ignoram que a estabilidade em qualquer reino envolvia um delicado equilíbrio entre coroa, nobreza e povo.

A república parece precisar do mesmo desdém pela pretensão empregado por um patriota do passado que certa vez disse desejar que "a munição disparada no tiro de canhão que saúda o presidente Adams o acertasse bem no traseiro".

Os filhos das famílias políticas provavelmente buscarão o poder - e o público pode muito bem responder com certa dose de perplexidade, torcendo por um tratamento favorável. Mas, nos Estados Unidos, devemos julgar um candidato por seus méritos. Afinal, é nisso que fomos ensinados a acreditar./ TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL

 

É EX-CORRESPONDENTE INTERNACIONAL DA REDE CNN

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