Baptistão/AE
Baptistão/AE

VISÃO GLOBAL: Tea Party ameaçado

Maior parte dos americanos rejeita a mistura entre religião e política

David E. Campbell Robert D. Putnam, 'The New York Times', O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2011 | 00h00

Considerando a grande influência que o Tea Party exerce sobre os republicanos no Congresso e os que buscam a indicação do partido para as eleições presidenciais, poderíamos pensar que o movimento está redefinindo a política conservadora americana. Na realidade, o Tea Party está cada vez mais nadando contra a corrente da opinião pública: entre a maioria dos americanos, antes mesmo do furor desencadeado a respeito do limite da dívida, sua marca estava se tornando tóxica. Aderir ao Tea Party representa um grande risco político para os republicanos, mas talvez não pela razão que se pode imaginar.

 

As sondagens mostram que a desaprovação ao movimento está crescendo. Em abril de 2010, uma pesquisa do New York Times/CBS News concluiu que 18% dos americanos tinham uma opinião desfavorável a seu respeito, 21% uma opinião favorável e 46% ainda não estavam bem informados. Agora, o número dos defensores do Tea Party caiu para 20%, e o de seus adversários é de 40%.

 

Segundo dados recentes, o Tea Party está recebendo menos apoio do que todos os outros 23 grupos mencionados na entrevista - menos até que os republicanos e os democratas. E é até menos popular do que grupos considerados maléficos, como "ateus" e "muçulmanos".

 

Curiosamente, nos últimos cinco anos, os americanos passaram a adotar uma posição conservadora em matéria de finanças: talvez sejam mais favoráveis a um governo menor, oponham-se à redistribuição da renda e defendam organizações de assistência privadas, e não os programas do governo, para ajudar os pobres. Embora nenhuma das opiniões seja a da maioria dos americanos, as tendências pareceriam favoráveis ao Tea Party. Então, por que um repúdio tão elevado? Para descobrir os motivos, precisamos analisar quais são as pessoas que o apoiam de fato.

 

A começar por 2006, entrevistamos uma amostra de 3 mil americanos no âmbito da nossa pesquisa permanente sobre as atitudes políticas nacionais e, recentemente, voltamos a entrevistar muitas das mesmas pessoas. Analisando o que as pessoas nos disseram muito antes que o Tea Party existisse, era possível prever quem passaria a aderir ao movimento, cinco anos mais tarde.

 

Os que se tornaram defensores do movimento eram republicanos com um intenso vínculo partidário muito antes do nascimento do Tea Party e mantinham um relacionamento mais forte com membros do governo. Além disso, contrariamente a algumas versões, o Tea Party não é um dos resultados da Grande Recessão. E embora para o público seu objetivo fundamental seja o desejo de reduzir a ingerência do governo, o temor do aumento de sua influência não é o único elemento que permite prognosticar o apoio dos eleitores ao Tea Party.

 

Então, o que seus partidários têm em comum? Eles são na enorme maioria brancos, tinham em menor consideração os imigrantes e os negros bem antes de Barack Obama ser eleito presidente e não mudaram sua posição. O mais importante é que eles eram desproporcionalmente conservadores em questões sociais - por exemplo, opondo-se ao aborto - e se mantêm ainda hoje. Os membros do Tea Party continuam defendendo as seguintes posições: procuram políticos eleitos "profundamente religiosos", aprovam o engajamento de líderes religiosos na política e querem que a religião seja incluída nos debates políticos.

 

Embora nestes cinco anos os americanos tenham se tornado um pouco mais conservadores em matéria de economia, eles se mostram mais contrários a misturar religião e política. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

CAMPBELL É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE NOTRE DAME. PUTNAM É PROFESSOR NA UNIVERSIDADE HARVARD

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.