REUTERS/Ammar Awad
REUTERS/Ammar Awad

Visita a Muro das Lamentações é 'quebra de protocolo', diz professor

Para Salem Nasser, professor de Direito Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas), 'você não vai a um território ocupado ao lado do chefe de Estado do governo ocupante'​

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2019 | 22h35

O professor de Direito Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Salem Nasser afirma ao Estado que a visita do presidente Jair Bolsonaro ao Muro das Lamentações, ao lado de Netanyahu, “é uma quebra do protocolo que os chefes de Estado tomavam antes”. Segundo ele, “você não vai a um território ocupado ao lado do chefe de Estado do governo ocupante”. 

Qual o significado de ser o primeiro líder a visitar o Muro com Netanyahu?

É uma quebra do protocolo que os chefes de Estado tomavam antes, de não fazer isso. Você não vai a um território ocupado ao lado do chefe de Estado do governo ocupante. Era o cuidado que todo mundo tomava. Isso não vai mudar o status da região, porque o Bolsonaro não tem esse poder de influenciar a história internacional sozinho. Pode ser até copiado por outros, mas o que pode mais potentemente alterar esse status é quando a imprensa tradicional, ou a internet, por exemplo, tratam Jerusalém Oriental, um território ocupado, como território israelense.

O que cada um deles ganha e perde com esta foto?

Bolsonaro só ganha na medida em que ele tem o grupo no entorno dele que vai aplaudir: parte da comunidade judaica, a comunidade evangélica que não está tão contente com ele de modo geral. Mas é ganhar tanto quanto escolher o Einstein ao Sírio-Libanês. É um recado para sua base, ao estilo Bolsonaro, uma coisa pouco pensada e pouco refletida. Ele dá um presente para o Netanyahu, que participa de campanha eleitoral, já que não pode dar o grande presente, que seria a mudança da embaixada. Mas ele perde porque isso é má política internacional e má política para o Brasil. Já para o Netanyahu, o Bolsonaro é apenas um instrumento. Ele conseguiu usar isso da melhor maneira possível. Apenas não conseguiu mudar a embaixada. Ele tem tudo a ganhar, principalmente no plano do simbólico. A pergunta é se no longo prazo essas vitórias vão contar a favor.

Por que dar um passo que nem Trump deu?

Tem duas linhas de análise: é uma coisa de compensação. Mal por não transferir a embaixada e por sentir que a coisa do escritório não era convincente, que evidentemente é um remendo, tentar compensar com a visita ao muro. A explicação mais profunda é que nos anos 90 a diplomacia brasileira era um pouco modesta e isso era objeto de crítica. Nos governos do PT, fomos mais ambiciosos, e talvez tenhamos tidos problemas na execução. Aí a crítica veio pelo excesso. Demos passos maiores que a perna. Se eu fosse resumir o Bolsonaro agora, seria uma espécie de superação na subserviência: bater continência para bandeira de outro país, usar boné (do Trump). Ajoelhamos em grande estilo.

 


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.