Visita de Dilma aos EUA vai ‘esquentar’ relação bilateral

Especialistas afirmam que reaproximação entre Brasil e EUA é fundamental na fase em que anfitrião se reposiciona na América Latina

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON

28 de junho de 2015 | 00h23

A desconfiança mútua que afeta a relação entre o Brasil e os Estados Unidos ultrapassa a crise gerada pela atuação da agência de espionagem americana e tem raízes mais profundas, que fazem com que expressões como “oportunidades perdidas” e “potencial não realizado” permeiem a narrativa usada por especialistas para traçar o histórico dos laços bilaterais.

Para eles, os dois lados deveriam usar a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington nesta semana para ajustar as lentes pelas quais se veem e aceitar que nem sempre seus interesses estratégicos serão coincidentes. “Os EUA têm de levar o Brasil a sério”, diz Eric Farnsworth, do Council of the Americas. 

Em sua opinião, a ida de Dilma aos EUA e sua reunião com Barack Obama na terça-feira são apenas os primeiros passos de um longo processo de construção de confiança. “O mais importante do encontro é que há um encontro.”

Apesar de ter se sobressaído no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o estranhamento é suprapartidário e se manifestou tanto na gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso quanto no regime militar. Os EUA se opuseram ao acordo nuclear fechado pelo Brasil com a Alemanha nos anos 1970. Na década de 1990, no auge do sucesso das receitas liberalizantes do Consenso de Washington, FHC não demonstrou entusiasmo pela Área de Livre Comércio das Américas proposta por seu amigo Bill Clinton. Sem o apoio fundamental do Brasil, a ideia acabou naufragando. 

Segundo Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue, existe frustração no Brasil pelo fato de Washington não ver o País como um líder global sério. A divergência se dá porque os EUA esperam cooperação do Brasil em questões relativas à América Latina, ao mesmo tempo em que descartam sua atuação em temas internacionais mais amplos, observou.

Na mão contrária, o Brasil preferiu canalizar sua atuação no hemisfério em anos recentes por meio de organismos que excluem os EUA, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe (Celac).

Mas Hakim detecta mudanças na postura dos EUA e ressalta que, pela primeira vez, Washington reconhece que tem dificuldades para promover sua agenda na região sem o apoio de Brasília. “O Brasil é a peça que falta na política americana para a América Latina”, destacou.

Hemisfério. O aprofundamento da relação bilateral seria um complemento de mudanças fundamentais da posição dos EUA no continente, sendo a principal delas a reaproximação com Cuba. 

Ben Rhodes, integrante do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, reforça essa percepção. “A relação EUA-Brasil é fundamental para qualquer abordagem dos EUA no hemisfério.” 

Na avaliação de Hakim, a relação bilateral está “gelada” desde 2010, quando o estranhamento entre os dois países chegou ao máximo em razão da tentativa do Brasil e da Turquia de negociarem um acordo sobre o programa nuclear iraniano. O movimento refletia a posição internacional mais assertiva do Brasil sob comando de Lula, que impulsionou um protagonismo inédito do Brasil no cenário externo. 

A posse de Dilma em 2011 representou uma oportunidade de reaproximação entre os dois países. Obama visitou o Brasil naquele ano, antes de receber a colega brasileira, que só foi a Washington em 2012. Dilma se preparava para voltar aos EUA em outubro de 2013, em uma visita de Estado, na qual seria recepcionada com as honras máximas destinada a dignitários estrangeiros. 

Os planos foram abatidos pela revelação da espionagem da Agência de Segurança Nacional, a NSA, e Dilma teve de cancelar a viagem. A presidente vai a Washington agora em uma visita de trabalho, mais modesta do que a prevista para 2013, mas com o desafio de construir uma relação de confiança com a grande superpotência do planeta. 

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