Visita de Koizumi à Coréia do Norte pode ser considerada histórica

A visita que faz nesta terça-feira o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, na Coréia do Norte (capital Pyongyang), a um dos últimos líderes comunistas do mundo, Kim Jong Il, é saudada em Tóquio como um "acontecimento histórico". E é verdade:Em primeiro lugar, a Coréia do Norte (a RPDC) é um dos países mais fechados e menos transparentes de nosso tempo, e sua independência, proclamada há mais de 50 anos, nunca foi reconhecida pelo Japão.Em seguida, a Coréia sofreu uma terrível ocupação japonesa, entre 1910 e 1945, durante a qual o Japão cometeu, entre outras ignomínias, a do uso de mulheres coreanas como "mulheres de conforto" - ou seja, como prostitutas para os soldados nipônicos. Disso resultou um ódio visceral entre os dois povos (do qual é vítima a minoria coreana que ainda vive no Japão e é tratada como uma espécie inferior).O Japão tenta apagar essa mácula em sua história: já apresentou, em 1999, desculpas à Coréia do Sul (capital Seul, ligada ao mundo ocidental, desde o fim da Guerra da Coréia, em 1953). Hoje, Junichiro Koizumi também se retrata diante da Coréia do Norte.A Coréia do Norte, embora sua economia esteja há muito tempo à beira do "coma", destaca-se no campo da pesquisa científica. Domina técnicas sofisticadas e faz parte da lista dos países do "eixo do mal", dos "países bandidos", elaborada por Washington. Suspeita-se de que ela exporte mísseis para o Irã, o Paquistão e o Iêmen.Aliás, o Japão está convencido de que a Coréia do Norte dispõe de centenas de mísseis de médio alcance apontados para o arquipélago nipônico. Ora, até agora, Kim Jong Il jamais aceitou que "inspetores internacionais" visitassem a Coréia do Norte para avaliar seus recursos nucleares e militares.Não é preciso dizer mais nada: todos estão pensando na relação do Ocidente com o Iraque, esse outro "país bandido", ameaçado pelas bombas americanas e que acaba de aceitar, in extremis, a presença incondicional dos inspetores da ONU.Como os EUA reagirão ao gesto audacioso de Koizumi? Com aprovação ou com descontentamento?Último item: a Coréia do Norte, país quase fantasma, sempre desenvolveu intensa atividade de espionagem, voltada principalmente para o Japão, a tal ponto que a história desses dois países de alguns anos para cá poderia servir de enredo a uma dezena de filmes de tipo "James Bond".A Coréia seria o ponto de partida de um grande número de tráficos: tráfico de anfetaminas e de dinheiro falso, realizados pela escória nipônica, recrutada em grande parte entre os imigrantes coreanos no Japão. Salas de um tipo de bilhar denominado "Pachinko" que fatura 300 bilhões de dólares, e que é controlado pelos coreanos. Barcos da Coréia do Norte que são freqüentemente apreendidos nas águas japonesas.Aquisição por compradores discretos (mas norte-coreanos) de equipamentos de alta tecnologia, etc. E, finalmente, o fato mais rocambolesco e um dos maiores motivos de indignação por parte dos japoneses: de alguns anos para cá, ocorreram onze raptos de cidadãos japoneses, homens e mulheres, dentro do próprio território japonês. Essas pessoas simplesmente sumiram. As autoridades japonesas já estavam convencidas de que esses raptos foram realizados pelos serviços secretos da Coréia do Norte. Mas com que finalidade? Pois bem, eles estavam sendo usados pelo governo norte-coreano para treinar - particularmente na língua japonesa - os espiões que Pyongyang envia para o arquipélago japonês.A Coréia do Norte, muitas vezes alertada por Tóquio, sempre negou ter qualquer responsabilidade sobre esses sumiços. Mas o Japão insistiu. E o primeiro-ministro japonês Koizumi esperava, evidentemente, receber como presente, no fim de sua rápida visita, um desses japoneses desaparecidos - no caso, uma japonesa, Keiko Harimoto, que foi raptada há alguns anos, em uma cidade da Europa, onde terminava seus estudos. O que não ocorreu. Trata-se, portanto, de uma viagem histórica, não resta a menor dúvida. Mas não foi uma viagem simples para o primeiro-ministro japonês, principalmente porque Kim Jong Il é um personagem singular, inconstante e impenetrável.

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