Hannah McKay/Reuters
Hannah McKay/Reuters

Visita de Pence a Londres expõe complexa relação entre Johnson e Trump

Reunião com vice que poderia ter sido uma grande demonstração de apoio capturou as complexidades do 'bromance' entre Johnson e Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 21h48

LONDRES - Atingido por derrotas em série no Parlamento, repreendido por membros de seu próprio partido, abandonado pelo próprio irmão, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, parecia nesta semana precisar de um amigo. 

Ele recebeu um nesta quinta-feira - ou pelo menos um fiel substituto - na pessoa do vice-presidente americano, Mike Pence. Pence se encontrou com Johnson em 10 Downing Street para repassar o apoio do presidente Donald Trump ao plano do premiê de retirar o Reino Unido da União Europeia.

O próprio Trump ofereceu a Johnson um tapinha, à distância, nas costas na quarta-feira, enquanto Johnson lutava com um Parlamento rebelde, dizendo a repórteres: "Boris sabe como vencer".

Hoje em dia, no entanto, Johnson não parece muito vencedor. Ele sofreu derrotas consecutivas no Parlamento em seu pedido de eleição e para retirar o país da União Europeia, com ou sem acordo, até 31 de outubro. Na quinta-feira, seu próprio irmão, Jo Johnson, renunciou ao Parlamento e ao governo, dizendo que estava "dividido entre a lealdade da família e o interesse nacional".

A amizade com Trump também é algo inconstante. Ele foi amigo do presidente da França, Emmanuel Macron, até que os dois se desentenderam sobre o Irã e as mudanças climáticas, entre outras questões. Johnson, como secretário de Relações Exteriores da primeira-ministra Theresa May, fez lobby sem sucesso na Casa Branca para o governo americano não desistir do acordo nuclear com o Irã.

Na quinta-feira, Trump ofereceu novamente, via Pence, a perspectiva de um acordo comercial lucrativo com os Estados Unidos.

"Ele me disse essa manhã", relatou Pence. "Ele disse: 'Você diz a meu amigo, primeiro-ministro Boris Johnson, que estamos prontos para trabalhar nesse acordo de livre comércio assim que ele estiver pronto'".

Johnson pareceu satisfeito - "fantástico", interrompeu a certa altura -, mas também desconfiou de um abraço de urso de um líder que permanece profundamente impopular no Reino Unido. A reunião, que poderia ter sido uma grande demonstração de apoio, capturou as complexidades do "bromance" de Johnson com Trump.

Enquanto Johnson congratulou-se com a promessa de negociações comerciais de Pence, ele disse: "Vocês são negociadores bastante duros, por isso vamos trabalhar muito para garantir que o acordo de livre comércio seja aquele que funcione para todos os lados".

Críticos de Johnson dizem que um Reino Unido pós-Brexit, principalmente se sair sem acordo, seria tão fortemente dependente dos Estados Unidos que Trump seria capaz de extrair termos punitivos em qualquer negociação.

Sob Johnson, dizem os críticos, o premiado sistema de saúde pública do Reino Undio seria orgulhosamente aberto às companhias de seguros e farmacêuticas americanas, enquanto os Estados Unidos forçariam os compradores britânicos a adquirir aves lavadas com cloro, o que é condenado pelos padrões europeus.

"Não gostamos muito desse frango clorado (frango desinfetado em um banho de cloro, como fazem as empresas alimentícias americanas)", disse Johnson. "Temos um frango clorado gigante aqui no banco da oposição".

Ele se referia a Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista (PT), a quem Johnson chamou de "frango clorado" durante um debate no Parlamento na quarta-feira, depois de tê-lo desafiado a apoiar uma eleição rápida.

Tudo menos o sistema de saúde

Durante a visita de Trump, em junho, ele primeiro sinalizou que tudo estaria sobre a mesa em uma negociação comercial. Mais tarde, porém, ele voltou atrás em suas palavras após intensa pressão dos britânicos, excluindo o sistema de saúde.

Na quinta-feira, Johnson se esforçou para reiterar que "o Serviço Nacional de Saúde não está sobre a mesa". Ele também lembrou a Pence as barreiras comerciais americanas contra a agricultura britânica e outras exportações.

"O povo dos Estados Unidos da América não come cordeiro ou carne bovina britânica - ou haggis (prato tradicional) da Escócia", disse o primeiro-ministro. 

Para Johnson, a política de seu relacionamento com Trump sempre foi complicada. Johnson manteve seus laços para tranquilizar os eleitores de que, se o Reino Unido deixar a União Europeia, ele estaria bem posicionado para estabelecer um acordo comercial com seu amigo na Casa Branca.

Por sua vez, Trump tem sido firme em seu apoio à abordagem agressiva de Johnson para as negociações do Brexit, incluindo sua ameaça de sair sem acordo. Pence ressaltou essa posição.

Se Johnson se encontrar, em poucas semanas, diante de uma eleição contra o Partido Trabalhista, que estará ansioso para pintá-lo como um lacaio de Washington, os analistas dizem que ele pode ter de se distanciar do que Pence comemorou como “o calor e relacionamento pessoal que criou com o presidente Trump". 

Até agora, Johnson adotou um tom respeitoso com o presidente americano. É difícil imaginá-lo brincando com Trump sobre "frango clorado", como fez com Pence. Em sua reunião na quinta-feira, Pence manteve um roteiro, como costuma fazer, enquanto Johnson brincava, interrompia seu convidado e falava casualmente - desempenhando um papel quase como o de Trump. / NYT

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