Visitas antagônicas

Estão em Washington o líder chinês e o jovem de Hong Kong que enfrenta seu regime

Emily Rauhala, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2015 | 02h02

Duas personalidades políticas muito diferentes visitaram ontem Washington pela primeira vez, oficialmente. Uma delas - o presidente chinês, Xi Jinping - foi recebida com um jantar de Estado e uma salva de 21 tiros de canhão. A outra - Joshua Wong - está na cidade para falar da luta de Hong Kong pela autodeterminação.

A presença dessas figuras divergentes constitui o centro do desafio que a China representa para os EUA: envolver o governo central do país, que caminha para o status de superpotência, sem abandonar aqueles que, como Wong, se sentem pisoteados.

Wong, de 18 anos, é o adolescente ativista cuja prisão, nesta mesma época, no ano passado, provocou o Movimento dos Guarda-Chuvas, em Hong Kong, e a ocupação que durou meses e paralisou partes da cidade, criando constrangimento para Pequim. Organizador hábil, dotado de uma inteligência ágil, ele se tornou a face pública dos protestos que ganharam as manchetes em todo o mundo, mas que, no fim, acabaram não obtendo concessões do governo central. "Não ganhamos", disse Wong em entrevista em Hong Kong, na semana passada.

Mas, 12 meses depois do início das manifestações, ele está mais determinado do que nunca a continuar a luta e passa a maior parte do tempo, que não dedica aos estudos, refletindo sobre como criar um movimento social duradouro. Levar 200 mil pessoas às ruas não foi suficiente para conseguir um autêntico sufrágio universal em Hong Kong - e o que poderá consegui-lo?

"O Movimento dos Guarda-Chuvas não alcançou o seu objetivo - a reforma política -, mas nós ainda precisamos usar nossa influência para fazer com que o mundo saiba que temos metas claras: lutar pela democracia para conquistar a autonomia", afirmou.

"Não temos muitas expectativas em relação ao governo americano, mas não é necessário colocar muita esperança no governo ou esperar que Obama mude de ideia e pergunte a Xi Jinping: 'Por que vocês não adotam o sufrágio universal em Hong Kong?' Eu coloco mais esperanças na sociedade civil."

Buscar maneiras de fazer com que Hong Kong seja ouvida é uma de suas especialidades. Wong nasceu em 1996 - um ano antes de Hong Kong ser devolvida a Pequim com a promessa de um "considerável grau de autonomia". Com o compromisso chamado "um só país, dois sistemas", a região administrativa especial chinesa manteria seu estilo de vida e algumas liberdades por 50 anos, mas em matéria de segurança dependeria de Pequim.

Educado no protestantismo pelos pais, que não são ativistas, aos 15 anos, Wong percebeu que a promessa dos "dois sistemas" estava ameaçada, particularmente pelas tentativas de impor a "educação moral e cívica" nas escolas de Hong Kong. Numa série de vídeos divulgados no YouTube, em postagens no Facebook e em discursos, Wong criticou o plano como "lavagem cerebral" do Partido Comunista - palavra de ordem que contribuiu para levar dezenas de milhares de pessoas às ruas e, no fim, obrigou o governo a mudar de ideia.

Numa entrevista em 2012 ao South China Morning Post, Wong citou o escritor japonês Haruki Murakami para explicar o motivo pelo qual decidiu atacar um inimigo tão poderoso. "Se há um muro alto, duro, e um ovo se quebra contra ele, não importa se o muro está certo ou se o ovo está errado, eu fico do lado do ovo", afirmou.

No verão, ele participou dos protestos contra um documento emitido por Pequim que esboçava a perspectiva limitada do governo central para o futuro de Hong Kong. Na noite de 26 de setembro de 2014, ele foi preso ao tentar entrar numa praça próxima da sede do governo. Imagens da cena mostraram Wong, então com 17 anos, magérrimo, sendo arrastado por policiais uniformizados, os óculos caídos, os olhos bem apertados.

As fotos assinalaram um momento decisivo: na noite de 28 de setembro, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas e foram reprimidas com gás lacrimogêneo lançado pela polícia de Hong Kong. Os manifestantes usaram guarda-chuvas para se proteger do spray. Foi assim que nasceu o Movimento dos Guarda-Chuvas.

A ocupação que se seguiu conquistou a imaginação mundial. Antes de conseguir o controle de um dos principais centros financeiros da Ásia, os jovens de Hong Kong muitas vezes foram criticados como intelectualoides e apáticos. Mas ali estavam eles, montando bloqueios nas ruas, gritando slogans e dormindo sobre as calçadas, agarrados às suas mochilas como a ursinhos de pelúcia, os guarda-chuvas prontos.

Wong e vários líderes da Federação de Estudantes de Hong Kong organizaram comícios que eram, em parte, cantorias típicas de acampamentos estudantis e, em parte, se destinavam a conscientizar a população. Noite após noite, ele subiu ao pódio - neste caso, uma escada - e de olhos fechados, segurando o celular na mão, pronunciava discursos inflamados num cantonês extremamente rápido.

Logo, ele não podia andar pela rua sem ser cercado por fãs. Wong parecia se encolher diante das atenções, dizendo aos repórteres que quando um movimento repousa nos ombros de uma única pessoa, está condenado ao fracasso.

A fama o tornou alvo dos jornais favoráveis a Pequim, que publicaram matérias acusando-o de ligações com a CIA. Wong ri: "Minha namorada brinca que sua imagem de um espião é Tom Cruise, não eu", ele disse. "E ela diz: 'Se você é um espião, por que é tão magro?'"

A imprensa oficial chinesa frequentemente acena com a ameaça de "forças externas hostis" que buscam desestabilizar a China - e o Movimento dos Guarda-Chuvas não era considerado muito diferente. "Os EUA alegam promover os valores universais da democracia, da liberdade e dos direitos humanos", alertou o Diário do Povo. "Mas, na realidade, estão apenas defendendo seus interesses estratégicos e minando os governos que consideram insubordinados."

Falar em Washington não significará grande coisa para conter as críticas da imprensa oficial, ou, na realidade, dos sujeitos favoráveis a Pequim que ocasionalmente o atacam, o assediam ou o abordam na rua. No entanto, como ele teve um ano para refletir sobre os protestos, Wong considera a possibilidade de um engajamento no plano internacional uma necessidade estratégica.

Ele observou que tentar assegurar concessões do Partido Comunista é uma iniciativa condenada ao fracasso, por enquanto. "Mesmo que eu tivesse a chance de me encontrar com Xi no mês que vem, não seria uma coisa útil", afirmou. "Se eu dissesse: 'Queremos o sufrágio universal', ele ignoraria o apelo, pois o povo de Hong Kong não tem poder suficiente de negociação."

Fortalecer o poder da cidade significa construir uma sociedade civil e instituições a partir do zero - nada fácil, admite Wong. Mas, quando chegar o momento de Hong Kong ser absorvida totalmente pelo continente, em 2047, a China talvez tenha mudado. Então, Wong terá 51 anos e espera ainda estar lutando. "O tempo está do nosso lado", afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EMILY RUAHALA É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.