Vislumbrando alguma luz na escuridão dos conflitos

Instabilidade no Oriente Médio não pode ofuscar avanços que foram conquistados ou evitar que se busque soluções estratégicas de compromisso em busca da paz na região

ABDULLAH GÜL, PROJECT SYNDICATE

23 de dezembro de 2014 | 02h00

Comecei minha carreira política em 1991 - no mesmo ano em que teve início a Guerra do Golfo e a Conferência de Paz do Oriente Médio se realizou em Madri. Os líderes da época tinham plena consciência das complexas vinculações entre o problema palestino e os outros desafios no Oriente Médio. Infelizmente, as vinculações permanecem até os dias atuais.

Desde então, testemunhei muitas iniciativas, planos e projetos para a solução de vários conflitos na região. Não preciso dizer que meu país, a Turquia, sempre esteve na linha de frente dos esforços da comunidade internacional para garantir a paz, a estabilidade e a cooperação naquela parte do mundo, e eu contribuí para alguns desses esforços na qualidade de membro do Parlamento, primeiro-ministro, chanceler e, posteriormente, como presidente.

Infelizmente, apesar do imenso gasto de energia e recursos ao longo de um quarto de século, esses esforços não produziram os resultados desejados. O modesto progresso foi sabotado ou não foi suficiente, embora milhares de pessoas inocentes, tanto no Oriente Médio quanto em outras partes, tenham sido vitimadas pela violência, o ódio e a vingança.

O massacre de civis (inclusive de muitas crianças) em Gaza, no verão passado, a barbárie do Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, o assassinato de rabinos numa sinagoga de Jerusalém e o ataque terrorista em Ottawa, no mês passado, coincidem na mesma verdade: a violência é contagiosa.

Riscos. Em 1991, Saddam Hussein era a única ameaça regional. Hoje, as ameaças se multiplicaram, com um efeito cumulativo. Em 1991, os Estados Unidos e a União Soviética foram os promotores da Conferência de Paz de Madri. Hoje, os EUA e a Rússia nem sequer mantêm um diálogo.

Embora os atores regionais e internacionais, no entanto, estejam profundamente frustrados com o agravamento dos problemas do Oriente Médio, uma atitude de maior pessimismo só contribuirá para piorar a situação.

Tentemos, portanto, extrair algumas lições dos sinais e das tendências positivas que se multiplicaram nos últimos meses.

Para começar, a retirada do arsenal de armamentos químicos do regime de Bashar Assad, na Síria, mostra que esforços conjuntos podem produzir resultados positivos. Por outro lado, concordando em estender as negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano, as partes mantiveram viva a promessa de um acordo final, que seria uma grande vitória para a diplomacia multilateral.

O sucesso das conversações nucleares com o Irã (nas quais estive envolvido, como chanceler e presidente da Turquia, em diversas fases) teria importantes consequências estratégicas, políticas e econômicas para o Oriente Médio e o mundo.

Uma solução poderia motivar o Irã a facilitar a solução de outros problemas regionais. Além disso, outras potências da região, que têm ou se acredita que tenham um arsenal nuclear, não terão nenhuma desculpa para se opor ao desarmamento.

Iraque. O estabelecimento de um governo iraquiano mais aberto - permitido pelo bom senso e pelos esforços coordenados dos atores dentro e fora do país - também é um sinal positivo, assim como as medidas adotadas para a solução das divergências entre o Governo Regional do Curdistão e as autoridades centrais em Bagdá. A decisão do Governo Regional do Curdistão iraquiano de não insistir em realizar um referendo sobre a independência prenuncia a possibilidade de estabilidade no Iraque e na região.

Pode-se afirmar o mesmo a respeito da coalizão formada e liderada pelos Estados Unidos contra o EI.

Embora os ganhos militares agora sejam visíveis, no entanto, o "poder duro" sozinho não será suficiente para derrotar o grupo. A solução consistirá em criar pacientemente uma estrutura política abrangente que tenha o apoio das pessoas e dos líderes locais que, desesperados e temerosos, foram atraídos para a causa extremista.

Embora o emprego do "poder duro" contra o EI talvez não tenha seguido o seu curso, os erros cometidos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria não deverão se repetir. Será preciso considerar sem demora estratégias para a saída militar e a transição política. Além disso, como o EI é um fenômeno que cristaliza todas as patologias sociais, econômicas, ideológicas e políticas da região, as soluções possíveis terão de ser ousadas e abrangentes.

Do mesmo modo, a decisão de alguns governos e Parlamentos europeus de reconhecer o Estado da Palestina é um fato que deve ser aplaudido. Ele é um reflexo do desapontamento provocado pelo atual impasse diplomático, cuja responsabilidade deveria recair totalmente sobre Israel, não sobre os palestinos. Esperemos que essa tendência encoraje os esforços dos que em Israel e na Palestina querem uma solução justa.

É do interesse de todos que o governo de Israel aja com comedimento em relação aos assentamentos na Cisjordânia e ao status de Jerusalém e dos seus locais sagrados.

Finalmente, embora a Primavera Árabe tenha sido asfixiada em todos os países (com a exceção da Tunísia), as expectativas, os anseios e as preocupações dos povos da região continuam vivas e válidas. As reivindicações que definiram a Primavera Árabe - democracia, boa governança, direitos humanos, transparência, igualdade dos gêneros, e justiça social - continuarão constituindo a agenda regional.

A questão está em como consolidar esses ganhos e alimentar os avanços. Uma iniciativa possivelmente construtiva consistiria em estabelecer um sistema de segurança semelhante à Organização para a Segurança e a cooperação na Europa.

Essa ideia, que existe desde os anos 80, deveria ser mantida viva, apesar - ou precisamente em razão das condições desfavoráveis de sua criação. Como esse mecanismo exigiria uma forte estrutura em termos de cooperação econômica, englobando questões energéticas e hídricas, estimularia o pensamento estratégico de longo prazo, ancorando os esforços multilaterais para a solução dos problemas à medida que eles surgem.

Por enquanto, o tumulto em que mergulhou o Oriente Médio não se assemelha a qualquer outra coisa vista anteriormente. É por isso que, mais do que nunca, precisamos de otimismo. Somente o surgimento de desdobramentos e visões positivas permitirá restaurar e garantir a paz e a estabilidade regional. Talvez as alternativas sejam sombrias demais ate para um pessimista chegar a imaginá-las. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É ex-presidente da Turquia

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