Adam Amengual/The New York Times
Adam Amengual/The New York Times

Visões da pandemia ganham espaço em museus

Lição de casa de um menino de 6 anos, material médico e fotos comuns viram obras de arte

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 08h00

Franklin Wong, de 6 anos, registrou a frustração de ser um estudante da primeira série em meados de março depois que suas aulas foram canceladas. Ele escreveu em grandes letras maiúsculas na sua tarefa de casa, passada pela internet: "Não fui a nenhum lugar", rabiscou, desenhando ao lado, com giz de cera verde e vermelho, um rosto infeliz.

Esta pode ser a primeira vez que o dever de casa de um aluno da primeira série é enviado a uma coleção permanente de um museu em vez de colocado na porta da geladeira dos pais. O Museu Autry do Oeste Americano, que recentemente adquiriu o diário de Franklin, está entre o crescente contingente de casas de exposição de arte e instituições acadêmicas que começaram a registrar esse momento de incerteza coletiva em um país em guerra ao coronavírus.

"Os museus têm a responsabilidade de encarar a História de frente", disse Tyree Boyd-Pates, de 31 anos, curador associado do Autry. Segundo ele, o objetivo da entidade é coletar momentos de experiência compartilhada como "uma chance de registrar como o Ocidente passou por essa epidemia".

Jake Sheiner, de 33 anos, um garçom que está desempregado desde março, em Glendale, na Califórnia, pintou 22 cenas da vida em quarentena dentro de seu apartamento, doando seu trabalho para as bibliotecas da Universidade do Sul do seu Estado. Em Nova York, Mitchell Hartman, um fotógrafo publicitário aposentado, anda pelas ruas fazendo imagens de seu bairro natal, o Queens, e as compartilhando com o Museu da Cidade de Nova York.

Os museus não estão apenas em busca de obras de artistas, mas as memórias de todos - e quanto mais pessoal, melhor - em um esforço que lembra os testemunhos em primeira pessoa que ficaram famosos depois de 11 de setembro de 2001.

O projeto do Autry segue os passos da iniciativa do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, o Collection Stories e Sociedade Histórica da Califórnia, que pedem a todos os frequentadores que documentem as experiências da covid-19.

O Museu da Cidade de Nova York e o Museu Nacional de História Americana do Smithsonian, o Museu Cape Fear e o Museu Cidade de High Point, na Carolina do Norte, também iniciaram iniciativas semelhantes.

O Autry está coletando receitas, equipamentos de proteção individual (EPIs), máscaras com motivos dos nativos americanos e histórias orais para seu novo projeto, Coletando História da Comunidade: O Ocidente Durante Covid-19.

Benjamin Filene, diretor associado de assuntos curatoriais do Museu Nacional de História Americana do Smithsonian, está adotando uma visão mais ampla quando sua equipe de 45 curadores tenta separar o significado do sentimentalismo.

"Temos o cuidado de não levar as coisas que as pessoas ainda precisam", disse Filene, "mas, no final, vamos querer ferramentas médicas e EPIs que se tornaram símbolos de desigualdades de classe e raça. O kit é uma ferramenta médica, mas se tornou tema de discurso político e uma necessidade econômica, por isso, é algo que desejaremos". E ele explica o motivo do trabalho de curadoria de objetos que parecem tão banais: "Percebemos mais do que nunca, mesmo quando abrimos o museu ao público, que essa crise não vai acabar. É óbvio que estamos vivendo um momento histórico"./ NYT

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