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Vítima de um boato

Na segunda-feira, a política mundial lembrava o romance de George Orwell em razão das revelações sobre as dimensões prodigiosas da espionagem controlada pelos EUA. Hoje, mudamos a referência literária, mas continuamos no caso do espião americano, com o imbróglio que abalou toda a Europa e a América Latina a respeito do avião no qual o presidente da Bolívia, Evo Morales, regressava de Moscou. O que aconteceu no aeroporto de Viena, na Áustria, parece um filme de James Bond.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2013 | 02h03

Chegou a correr o boato de que Edward Snowden, o jovem especialista em informática que divulgou documentos sobre a espionagem praticada pelos EUA teria se refugiado no aeroporto de Moscou, teria viajado clandestinamente na aeronave de Morales. Snowden trabalhava para uma empresa que prestava serviços à Agência de Segurança Nacional americana.

Imediatamente, a máquina de boatos começou a se movimentar com rumores fundados ou infundados. Em todo caso, seria difícil separar o verdadeiro do falso. Vários países europeus teriam se recusado a autorizar o avião de Morales em seu território ou a sobrevoá-lo. Lisboa teria cancelado uma escala técnica prevista para o abastecimento de querosene da aeronave. Em seguida, a França e depois a Itália teriam negado a autorização concedida inicialmente ao avião de Evo para sobrevoar seu território. Então a Áustria divulgou a informação de que Snowden não se encontrava a bordo.

O caso, é claro, provocou grande estardalhaço, principalmente na América Latina e, nesse continente, nos países tradicionalmente mais hostis aos americanos. A Bolívia, nem é preciso dizer, mas também a Venezuela, etc.

Europa. Na França, entretanto, o que se percebe é um certo mal-estar. A porta-voz oficial do governo tentou desmentir as informações segundo as quais Paris teria se recusado a permitir que o avião do presidente boliviano sobrevoasse seu território, mas devemos reconhecer que ela o fez sem entusiasmo ou convicção.

Pode-se compreender a dificuldade de Paris. François Hollande foi um dos primeiros chefes de Estado a condenar e a pôr na berlinda as péssimas maneiras dos americanos, esquecendo que cada país espiona todos os outros países, com a única diferença de que os recursos americanos são monstruosamente mais poderosos do que os de uma nação secundária.

Seja como for, e levando em conta a atitude de Hollande, pela lógica, ele não se escandalizaria se o avião de Morales abrigasse o jovem que lançou o alerta, Snowden.

Entretanto, a falta de reação foi interpretada pelos EUA como um grave ato de inimizade. Ocorre que as relações entre Paris e Washington já estão bastante tensas, justamente em razão da indignação e do estardalhaço feito por Paris em razão das redes de espionagem americanas.

É preciso assinalar que, neste momento em que o presidente da república navega de algum modo entre a revolta e a submissão diante de Washington, uma parte da opinião pública toma partido por Snowden e ataca o Império da Espionagem que são os EUA.

Até aqui, nenhuma novidade! É principalmente nas franjas da extrema esquerda, por exemplo entre os seguidores de Jean-Luc Mélenchon, o presidente da Frente da Esquerda, que os justiceiros se encontram. A dirigente da Frente Nacional, de ultra direita, também acha que Snowden deveria encontrar logicamente asilo político em um país europeu. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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