Sergio Perez/Reuters/Arquivo
Sergio Perez/Reuters/Arquivo

Vítima do 11M: 'Cheguei ao hospital com o atestado de óbito sobre a barriga'

Ferida no atentado em Madri, mulher conta como se recuperou depois de ter sido dada como morta

Christina Stephano de Queiroz, especial para o estadão.com.br,

10 Setembro 2011 | 18h30

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

MADRI - As dez bombas que explodiram às 7h30 do dia 11 de março de 2004 na estação de trens de Atocha, em Madri, mataram quase 200 pessoas e feriram outras 2 mil. Um terço das pessoas atingidas eram estrangeiros. Foi o maior atentado na história da Espanha e o segundo da Europa - o pior ocorreu em 1988, quando um avião que ia de Frankfurt a Londres explodiu no ar, matando 270 pessoas.

 

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Em Madri, a linha de trem atacada vinha da periferia para o centro e levava gente a caminho do trabalho. Uma delas era Mónica Sánchez, atual secretária da junta diretiva da Associação de Vítimas do 11 de Março.

 

Quando chegou ao hospital, os paramédicos a deram por morta e deixaram um atestado de óbito em cima da sua barriga. "Tenho poucas lembranças do atentado. Uma bomba estourou muito perto de mim e eu entrei em coma. Acordei depois de um mês e meio na cama do hospital", relembra. Grávida, Mónica perdeu o filho no incidente. Ela levou quatro anos para deixar as muletas e a cadeira de rodas, período em que também realizou diversas operações para recuperar a audição.

 

Espanha não estava preparada

 

Assim como quase todas as vítimas do atentado - com exceção de famílias que decidiram retornar aos seus países de origem - Mónica recebe um pagamento mensal do governo por incapacidade. Mas ela garante que seria melhor se recebesse apoio para encontrar trabalho.

 

Para ela, a Espanha não estava preparada para o atentado e tampouco está hoje. "Há pessoas que esperam seis meses para tramitar a mudança da prótese de uma perna amputada", critica. Ainda de acordo com Mónica, a maioria das 1,7 mil vítimas atendidas pela associação está recuperada.

 

Arquivos do luto

 

Também no sentido de amparar as vítimas e colaborar com a memória histórica da cidade, outro trabalho importante foi desenvolvido pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), que criou o projeto Archivo Del Duelo (Arquivo do luto, em tradução livre). Formado por antropólogos e especialistas em literatura, a iniciativa recolheu cerca de 70 mil objetos deixados nas estações de trens de Madri – entre bilhetes, flores, camisetas.

 

O objetivo é documentar e analisar as respostas dos cidadãos ao atentado. Cristina Sánchez-Carretero, uma das coordenadoras do projeto, explica que, entre outras ações, foi feito um trabalho junto à comunidade muçulmana da cidade. "Houve uma preocupação intensa com os jovens muçulmanos de Madri, que já eram chamados de "mouros" e passaram a ser tachados também de terroristas", diz.

 

Anistia polêmica

 

Atualmente, dos 28 acusados pelo atentado, 16 cumprem penas que variam entre 10 e 50 anos de prisão. Em 2007, uma das anistias mais polêmicas foi dada a um dos supostos autores intelectuais do crime, Rabei "Mohamed El Egipcio" Osman, que já cumpria prisão na Itália por envolvimento em outras ações terroristas.

 

As investigações - que não comprovaram quem foi o verdadeiro autor intelectual do crime - foram levadas a cabo de forma conjunta por diferentes corpos de polícia e organizadas pelo Centro Nacional de Coordenação Antiterrorista, criado em 2004 logo após o atentado.

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