Vítimas da guerra: violência sexual ainda é epidemia

Tropas da ONU no Congo não impedem onda de estupros

Mariana Della Barba, enviada especial de O Estado de S. Paulo,

18 de dezembro de 2007 | 15h28

As ONGs do Congo que apóiam mulheres vítimas de violência sexual são chamadas maisons d'écoute - algo como "casas onde se escuta". Se à primeira vista o nome pode soar estranho, basta entrar em uma delas para entender seu significado. Num país onde o estupro é usado como arma de guerra não só pelas milícias, mas também pelo próprio Exército, as mulheres violentadas simplesmente não têm a quem recorrer. Elas não podem procurar a polícia porque, diante de tantos casos impunes, sabem que será inútil.   África, um continente em transformação China vai à África e muda o continente A África que prospera: Angola vive ‘milagre econômico' Meninos-soldados tentam esquecer a infância Brasileiros faturam alto no mercado angolano Darfur é retrato da velha África Zimbábue de Mugabe vai na contramão Imagens da África   Se, por um milagre, o culpado for encontrado e preso, sua pena pode ser paga com um bode ou uma galinha. Rejeitadas pela família e enxotadas pelo marido, resta a elas as organizações humanitárias, que lhes dão tratamento médico e as escutam.   Só em Kivu do Sul - uma das 11 províncias do Congo - foram registrados 17 mil estupros em 2006. O número corrobora a tese de que a violência sexual é uma epidemia no país, ainda mais porque 30% das vítimas contraem o vírus HIV. O mais incompreensível é que isso ocorre debaixo do nariz da maior tropa de paz da ONU do mundo, que no Congo tem 17 mil soldados e leva o nome de Monuc.   Para chegar à ONG Vico, na periferia de Bukavu, é preciso subir um morro a pé. Na casa que abriga a organização propositalmente não há placa alguma. Quem busca ajuda ali não quer ser identificada como vítima de estupro, para evitar mais retaliações. A própria diretora da Vico, Wilhelmine Ntakebuka, também é vista com desconfiança pelos vizinhos. "Eles me criticam por abrigar essas mulheres", conta Willy, como é conhecida.   Na sala principal, seis congolesas trabalham animadamente em máquinas de costura antigas. "Eu nem gosto tanto de costurar, mas quando me sento aqui consigo esquecer de tudo o que me aconteceu. Porque quando volto para casa, começo a lembrar daquele dia e o pesadelo recomeça", conta Nzigire*, de 27 anos, que vai à Vico todos os dias desde julho do ano passado, quando foi violentada por três soldados. "Um bando invadiu o vilarejo onde moro e foi pegando todas as mulheres, uma por uma, não importava a idade." Mesmo após os soldados partirem, o inferno de Nzigire continuou: "Além da humilhação, o estupro fez com que meu marido me abandonasse."   Solidão   Nicole, de 35 anos, também parece sofrer mais com a solidão do que com o estupro em si. "Estava voltando do mercado próximo de onde em morava, em Uvira, quando encontrei quatro homens armados. Todos me violentaram", conta, quase sussurrando, como se os vizinhos estivessem ouvindo. Ela foi então levada para o Hospital Panzi, no subúrbio de Bukavu, referência no país para tratamento de vítimas de violência sexual.   Julgando pela entrada, o lugar mal lembra uma área médica. Os corredores internos têm longos canteiros a céu aberto, alguns até com rosas. Nos gramados, mulheres estendem roupas e panelas para secar, e crianças correm de um lado para outro. As vítimas muitas vezes vêm de longe e por isso os parentes também ficam por ali, cozinham do lado de fora dos quartos e dormem no chão ao lado dos leitos.   No último corredor está a ala das mulheres violentadas. Lá, ao menos seis vítimas são operadas por dia, mas dez novas pacientes chegam todas as manhãs - das quais três são meninas. Willy explica que a violência sexual, ao contrário do que muitos dizem, não é algo intrínseco na sociedade congolesa.   O estupro começou a ser usado como arma de guerra em meados dos anos 90, quando rebeldes da etnia hutu entraram no Congo após participarem do genocídio de 800 mil tutsis da vizinha Ruanda, em 1994. Em 2006, houve uma breve esperança quando foi aprovada uma série de leis determinando a punição de estupradores. "A lei existe, mas na prática é como se não existisse", diz Willy, citando o caso de Awila. "Quando eles (os rebeldes) acabaram de fazer o que queriam comigo, mataram meu marido e meus filhos de 16 e 18 anos na minha frente", conta Awila, que foi violentada por seis soldados hutus em 2005, quando tinha 54 anos.   Balançando a cabeça, ela diz ainda que teve de dar os outros seis filhos porque não podia sustentá-los. "Uma coisa eu sei bem, você pode anotar aí", diz. "Na guerra, as mulheres são sempre as vítimas que mais sofrem." M.D.B.   * Os nomes de todas as vítimas citadas nesta página foram alterados   Frases Wilhelmine Ntakebuka Diretora da ONG Vico "O estupro veio com a guerra. E a única explicação que eu vejo para ele ter se propagado a esses níveis é que ele é uma forma barata e eficiente de destruir a sociedade congolesa"   Awila, 54 anos Congolesa violentada por seis soldados hutus "Quando eles (os rebeldes) acabaram de fazer o que queriam comigo, mataram meu marido e meus filhos de 16 e 18 anos na minha frente"

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