A. Shibayama Family Collection / Acervo
A. Shibayama Family Collection / Acervo

Vítimas levadas à força aos EUA veem ecos do passado em Trump

Parentes de minorias presas na 2ª Guerra lamentam política migratória de presidente

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2017 | 05h00

A noite de 6 de janeiro de 1943 foi uma das mais aterrorizantes da vida da peruana Sadako Blanca Katsura. Por volta das 22 horas, seu pai foi levado pela polícia da casa em que a família vivia na zona rural de Cañete, ao sul de Lima, no Peru. Com 12 anos de idade, Blanca só teria notícias do pai cinco semanas mais tarde, quando recebeu uma carta do Panamá, onde ele era mantido em um campo de trabalhos forçados.

Logo depois, Victor Maoki seria levado ao campo de detenção Kennedy, no Texas, criado pelo governo dos EUA para confinar aqueles vistos como inimigos por ter origem nos países que lutavam no campo oposto na 2.ª Guerra: Japão, Alemanha e Itália. Parentes e ONGs que lembram dos abusos contra minorias durante o conflito veem um eco disso nas atuais políticas migratórias do presidente Donald Trump. 

Os que foram retirados da América Latina não eram cidadãos americanos, o que removia um obstáculo jurídico para sua deportação. Com seus documentos confiscados, eles eram acusados de entrar ilegalmente nos EUA, o que servia como justificativa para sua detenção e eventual expulsão. 

Com três filhos, de 12, 7 e 3 anos de idade, a mãe de Blanca, Elena Maoki, se ofereceu para ir aos Estados Unidos e ficar ao lado do marido. A família se reencontrou no dia 3 de agosto de 1943, no campo Crystal City. Lá, Blanca ficou amiga de Art Shibayama, outro peruano que viu sua adolescência interrompida pela guerra.

Em dezembro de 1945, a família de Blanca recebeu uma ordem de deportação para o Japão, que só não foi cumprida porque seu pai ficou doente e precisou ser hospitalizado. A permanência em Crystal City se estendeu por mais dois anos e só foi encerrada quando uma tia da Califórnia se responsabilizou pela família. Sem dinheiro, eles viveram durante quase um ano em dois quartos no subsolo de uma Igreja Metodista.

Na terça-feira, ela estará na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para acompanhar a audiência em que Shibayama pedirá reparação semelhante à que foi dada aos japoneses dos EUA detidos no campo em que ele ficou confinado por dois anos e meio. 

Depois que deixaram Crystal City, os Shibayama foram trabalhar na fábrica de processamento de vegetais Seabrook, em New Jersey, onde ficariam até 1949, quando se mudaram para Chicago. Segundo a petição apresentada à CIDH, Art recebia salário abaixo da média e pagava imposto de 30% sobre o que ganhava por ser considerado imigrante ilegal. “Como eu poderia ter entrado ilegalmente se foi o próprio governo que me trouxe para cá?”, pergunta.

Nos anos seguintes, ele foi ameaçado de deportação e só conseguiu permanecer nos Estados Unidos por aceitar a convocação para servir no Exército. De 1952 a 1954, ele ficou em bases americanas na Alemanha, mas nem isso garantiu a obtenção de cidadania, que só conquistou no início dos anos 70.

Em 1955, Shibayama casou-se com Betty, filha de japoneses nascida no Estado de Oregon que foi detida com sua família em diferentes campos a partir de 1952. Americana, ela recebeu a indenização de US$ 20 mil e uma carta de desculpas assinada por George H. W. Bush impressa em papel com o selo da presidência dos EUA. 

“Nós podemos adotar uma posição clara pela Justiça e reconhecer que graves injustiças foram praticadas contra os nipo-americanos durante a 2.ª Guerra”, escreveu Bush. 

Assinada por Bill Clinton, a carta entregue aos nipo-peruanos não trazia o selo da Casa Branca nem mencionava japoneses ou peruanos. No processo na CIDH, os EUA reconhecem que eles foram trazidos ao país nos anos 40, mas sustenta que a organização não tem competência para julgar os fatos, por ter sido criada depois que eles ocorreram, em 1959.

Repetição. Alguns dos que viveram aquela experiência de maneira direta ou indireta veem ecos do passado nas tentativas de Donald Trump de proibir a entrada nos EUA de cidadãos de países de maioria muçulmana. Antes da guerra, asiáticos já eram alvo de medidas restritivas a seu ingresso no país. 

“A comissão que analisou o assunto concluiu que houve preconceito racial, histeria durante a guerra e falhas na liderança política do país. Não é muito diferente do que vemos hoje”, disse Grace Shimizu, diretora do Projeto de História Oral Japonesa-Peruana, que resgata a experiência dos que foram levados do Peru para os EUA durante a guerra. “Esse país tem uma longa história de racismo e de defesa da supremacia branca.”

Poucos dias depois de Trump editar a primeira versão de seu decreto com o veto a muçulmanos, no fim de janeiro, a German American Internee Coalition divulgou nota em que fazia paralelo entre a situação atual e a vivida pelos alemães nos EUA durante a 2.ª Guerra. A organização foi criada em 2005 com o objetivo de buscar reparação pelos abusos cometidos durante o conflito.

“Temidos de maneira coletiva por nossa etnia germânica, nossas liberdades civis foram violadas pelo governo dos EUA. Semelhantes presunções indiscriminadas não deveriam ser adotadas hoje. Etnia, religião, nacionalidade ou aparência não são suficientes para declarar todo um grupo como indesejado.”

No Brasil. Sete décadas após o fim da 2ª Guerra, japoneses e seus descendentes que vivem no Brasil ainda não receberam um pedido de desculpas oficial do governo federal pelas violações de direitos, discriminação, prisões arbitrárias e torturas registrados antes, durante e depois do conflito. O assunto é objeto de um processo iniciado na Comissão da Anistia em 2015, que poderá ter uma decisão no próximo ano, quando se completam 110 anos da imigração japonesa para o Brasil. 

“O pedido de desculpas não é o fim, é o começo. Temos de resgatar a história para que isso não aconteça de novo”, disse Mario Okuhara, documentarista e criador do projeto Abrangências, cuja missão é buscar a reparação da experiência histórica dos japoneses naquele período.

Segundo ele, a comunidade japonesa no Brasil não tem interesse em obter indenização pecuniária pelas violações de direitos. Okuhara começou a pesquisar o assunto na década passada e enfrentou resistência de muitos que gostariam de esquecer o passado. “Havia uma cultura da vergonha e uma ênfase na assimilação”. O silêncio começou a ser quebrado em 2013 em depoimentos na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo. Em breve, o caso ganhará abrangência nacional na Comissão da Anistia, ligada ao Ministério da Justiça.

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