Vitória da direita francesa assusta o coração da UE

A vitória de Jean-Marie Le Pen, extrema direita, no primeiro turno das eleições presidenciais francesas trouxe a Bruxelas, capital da União Européia (UE), um dia de reações amargas e até mesmo um certo presságio de tempos difíceis para os mais pessimistas.O presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, declarou hoje que sua esperança é de que o líder da Frente Nacional respeite os valores fundamentais da União Européia de tolerância e democracia. Bruxelas sabe bem que Le Pen é antieuropeu, lembrado por ele mesmo, neste domingo, após saber da própria vitória, quando se dirigiu aos "metalúrgicos, operários e operárias arruinados pelo ´euromundialismo´ de Maastricht" (referência ao Tratado de 1992, que ratificou a UE).Funcionários, deputados e diplomatas europeus demonstraram-se hoje decepcionados. " Nós só falamos disto. É a surpresa geral e uma consternação absoluta ", assegurou um alto funcionário europeu, traduzindo o sentimento geral em Bruxelas."É uma catástofre, mas não uma tragédia", definiu à Agência Estado, o professor-doutor em ciência política da Universidade Libre de Bruxelas, Joel Kotek, a vitória de Jacques Chirac, centro-direita, e de Le Pen, extrema direita, para o segundo turno das eleições presidenciais na França.Vento de direitaNa opinião de Kotek, o socialista Leonel Jospin perdeu o primeiro turno por ter usado uma certa prática política honesta. "Por ter falado sem utopias, sem demagogias", afirmou o professor. Mas, espera-se, com 80% de chance, que Chirac será o vencedor do segundo turno a ser realizado em 5 de maio -, "porque as forças liberais e democráticas se unirão".O problema será para as eleições legislativas, marcadas para junho, "aí sim, Le Pen poderá surgir como uma terceira força majoritária na Assembléia e espero que os franceses tenham o bom senso de evitar o risco da lepenização dos espíritos, tanto para a França, quanto para a construção européia", analisa Kotek. Para a construção da UE, "Chirac não é um neo-liberal, mas é pro-europeu. O Chirac de hoje não é o mesmo das últimas eleições presidenciais, ele amadureceu e aprendeu a respeitar a força desta União ", afirma.?Há um vento de direita que sopra sobre a Europa desde a vitória de Bush nos Estados Unidos?, constatou o ex-presidente português Mario Soares, hoje eurodeputado no Parlamento Europeu (PE), citando o crescimento ?inquietante de uma direita agressiva e xenofóbica ", na Austria, Dinamarca, Portugal e na França.Os nomes mais óbvios são os do italiano Umberto Bossi e do austríaco Jörg Haider, mas também o do populista holandês Pim Fortuyin, que provavelmente terá um bom desempenho nas eleições previstas para daqui a poucas semanas nos Países Baixos. Sem esquecer que o CDU (direita alemã) começa a esboçar uma certa preferência nas pesquisas eleitorais alemãs contra o chanceler Gerhard Schroeder também para as próximas eleições gerais na Alemanha.Comissão Européia, na prática, nada interfere na rotina dos comissários europeus, mesmo do comissário europeu de comércio, Pascal Lamy, um socilaista próximo a Jospin. Como de praxe, a França, enquanto país grande dentro da UE, indica dois comissários, normalmente um do partido do governo e outro de oposição. Os franceses, além de Lamy, contam com o comissário de política regional, Michel Barnier, mais próximo às idéias de Chirac.A comissão é um órgão colegiado, os comissários são nomeados pelo presidente da Comissão, indicado pelo Conselho de ministros da União Européia. O mandato atual termina em 2005. "Entretanto uma França mais a direita terá interferência, com certeza, nas grandes negociações, tanto multilaterais, quanto nos temas internos europeus", garante um alto funcionário do Conselho de Ministros.Parlamento europeu?Um resultado onde cerca de 25% de abstenções e perto de 30% dos eleitores votaram a favor de candidatos de extrema direita ou de extrema esquerda terá provavelmente implicações não somente na França, mas também para toda a classe política européia", estimou o presidente da PE, o liberal Pat Cox.A co-presidente do grupo dos verdes, Monica Frassoni, falou à AE, que hoje esteve em reunião o dia inteiro, inclusive com outros partidos de esquerda. "Está na hora da esquerda européia fazer uma auto-análise e ser mais atenta às políticas sociais", afirmou a eurodeputada.Nas últimas eleições para eurodeputados, em 99, a direita já ganhou um certo espaço no perfil do Parlamento Europeu. "Mas, tradicionalmente o PE funciona como um pêndulo dentro da Europa, ou seja, o que se tem visto nas urnas é que os cidadãos costumam votar ao contrário dos resultados internos, talvez porque se sintam mais livres para expressar suas idéias", fala Frassoni.No Reino Unido, por exemplo, somente 24% dos cidadãos comparaceram às urnas em 99 para as eleições de eurodeputados e quase todos os eleitos foram conservadores, porque o partido trabalhista resolveu não investir na campanha na época. As próximas eleições para o Parlamento Europeu serão em 2004 e "vimos com esta experiência amarga que teremos que investir em uma campanha eleitoral verdadeiramente européia", afirma a co-presidente do grupo dos verdes europeus.

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