Drew Angerer/Getty Images/AFP
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Vitória de Biden pode fortalecer agenda verde e dificultar relação Brasil-EUA, dizem analistas

Democrata aparece na liderança das principais pesquisas americanas a um dia do pleito

Paulo Beraldo e Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 06h00

Com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) alinhado à figura do presidente Donald Trump, uma vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos pode prejudicar a inserção internacional do Brasil, segundo analistas ouvidos pelo Estadão. Por outro lado, eles dizem que uma vitória democrata teria potencial para fazer avançar uma agenda sustentável, ao passo que os frutos concretos de uma eventual nova gestão de Trump são incertos.

A um dia do pleito, que ocorre nesta terça-feira, 3, o ex-vice-presidente Biden aparece na liderança das principais pesquisas americanas. Para o pesquisador Roberto Menezes, da Universidade de Brasília, caso a vitória democrata se confirme, "o governo brasileiro teria de fazer um esforço dobrado para conseguir menos coisas e tendo que ceder ainda mais". Hoje, os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

Menezes relembra acenos que Bolsonaro fez à gestão de Trump, como quando o presidente anunciou a possibilidade de ceder espaço para instalação de uma base militar americana no Brasil ou quando sugeriu mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. "Essa posição de se alinhar ao Trump debilitou muito o Brasil. O País não é visto por seus vizinhos como um interlocutor que vale a pena", sustenta. "Nesse sentido, poderia se falar em isolamento."

Menezes acredita que uma vitória de Biden poderia até fazer com que o presidente troque o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que costuma criticar o multilateralismo e já escreveu que "Trump é o salvador do Ocidente". Ele destaca a força que o democrata e a senadora Kamala Harris colocariam em temas como o dos direitos humanos e o da agenda verde, nos quais hoje o País é criticado no cenário internacional.

Professora de relações internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker aponta também que a posição do governo brasileiro de antagonizar com lideranças regionais, como o argentino Alberto Fernández e o recém eleito Luís Arce, da Bolívia, faz com que o Brasil perca ainda mais espaço. "É uma situação que o Brasil, se não flexibilizar sua visão e estabelecer canais de diálogo, vai ficar isolado tanto no âmbito europeu quanto na América Latina". 

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Na mesma linha, o diplomata Rubens Ricupero, que foi embaixador em Washington, diz que “a visão do Brasil do mundo é uma visão muito alinhada à extrema-direita americana". “Se essa extrema-direita perder o controle do poder, vai sobrar muito pouco no mundo em termos de países semelhantes à visão que o Ernesto Araújo tem. Dá para contar nos dedos de uma mão: talvez a Hungria, a Polônia, e mesmo assim são países da União Europeia mais moderados", diz ele. "O Brasil vai ficar extremamente isolado em sua visão de mundo.”

Já uma vitória de Trump, na avaliação do cientista político especializado em relações internacionais e professor do Insper Leandro Consentino, pode acabar sendo mais vantajosa para o Brasil no curto prazo, dado o alinhamento do governo brasileiro ao republicano. “Mas isso tem que ser provado”, diz ele, que relembra a decisão do governo americano de impor tarifas de importação para folhas de alumínio de 18 países, entre eles o Brasil. Por pressão de Trump, o governo brasileiro renovou a cota de importação de etanol dos EUA sem tarifa por três meses às vésperas da eleição americana.

O cientista político e professor da Unesp Marco Aurélio Nogueira diz que este cenário poderia gerar “certo tipo de entusiasmo retórico” e reforçaria o bolsonarismo, sem contudo trazer ganhos concretos para o governo brasileiro. “Em vez de o apoio ao Trump ter tido uma reciprocidade, com resultados para a economia brasileira, ele produziu o contrário. O Brasil se distanciou mais de alguns parceiros tradicionais, da própria China, e só obteve os restos do que Trump prometeu nos EUA”, afirma Nogueira, em referência à cloroquina doada ao Brasil pelos Estados Unidos. 

No caso de uma vitória de Biden, Nogueira avalia que o País se depararia com "o cenário inverso". "Os defensores de uma visão de política externa mais aberta, multilateral, cooperativa e solidária vão crescer", diz o pesquisador, que avalia que o Brasil teria de "corrigir sua narrativa para não entrar em colisão aberta com uma potência".

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