MARTIN BERNETTI / AFP
MARTIN BERNETTI / AFP

'Vitória de Boric mostra que chilenos querem mudança, sem partir do zero', diz analista político

Para Tomás Duval, novo presidente 'precisará ter um olhar de país, e não de sua própria coalizão' para unir o país

Entrevista com

Tomás Duval, decano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Autónoma de Chile

Thaís Ferraz, enviada especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 05h00

A vitória do esquerdista Gabriel Boric sobre o candidato da direita, José Antonio Kast, foi maiúscula, e carrega uma mensagem clara: a sociedade mostrou que quer mudança, mas também não quer partir do zero. A opinião é do analista político e decano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades da Universidade Autônoma do Chile, Tomás Duval. “Boric precisará ter um olhar de país, e não de sua própria coalizão, para unir os chilenos”.

Nessa entrevista ao Estadão, Duval afirma que a maior dificuldade de Boric  será “formar uma nova maioria e dar consistência ao projeto que propôs”. O primeiro passo, diz Duval “dar uma volta atrás e concentrar-se na economia. Traduzir institucionalmente as suas posições políticas.”

Além disso, a participação histórica na eleição, para os padrões chilenos, onde o voto é voluntário, também são uma mensagem da sociedade. “Essa eleição concede a Boric uma legitimidade importante. Foi um mérito dessas eleições. As campanhas convocaram os cidadãos e os cidadãos compareceram no segundo turno”.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

Como fica a governabilidade do Chile após uma eleição tão polarizada?

Creio que Boric tem um grande desafio, que é conquistar essa governabilidade. Ele terá grande apoio inicial da centro-esquerda, mas seu desafio será na maneira como vai se relacionar, dialogar com o Congresso e com todas as outras forças políticas. 

Com quem ele terá que forjar alianças para conseguir a maioria? 

Haverá a possibilidade de novos tipos de aliança devido às mudanças de cenário que aconteceram recentemente no Chile. A aliança natural, é claro, é da centro-esquerda que o apoio nessa eleição, mas ele terá que buscar diálogo com a oposição, principalmente considerando a formação do novo congresso. 

Ele conseguirá cumprir suas promessas/propostas?

É uma pergunta difícil. Algumas promessas muito centrais de sua campanha, como as promessas em relação às pensões e à recuperação do emprego, precisaram ser abordadas de maneira específica. Ele também precisará fortalecer sua posição em matérias econômicas, tema no qual os dois candidatos tiveram dificuldades em suas posições prévias. Ele precisará ser capaz de projetá-las ao longo do tempo.

A alta abstenção pode ter algum efeito sobre a legitimidade do processo eleitoral?

Não, porque estimo que a participação no segundo turno, ao contrário do que aconteceu no primeiro, foi muito alta para os padrões chilenos. Cerca de 55%. Se confirmada, é uma participação histórica, considerando o voto voluntário, e isso concede a Boric uma legitimidade importante. Foi um mérito dessas eleições. As campanhas convocaram os cidadãos e os cidadãos compareceram no segundo turno.

Boric será capaz de unir o Chile depois dessa disputa?

É um mandato muito claro. A sociedade mostrou que quer mudança, mas também não quer partir do zero. Então creio que ele precisará ter um olhar de país, e não de sua própria coalizão, para unir os chilenos.

Quais serão os maiores desafios de Boric?

Formar uma nova maioria e dar consistência ao projeto que propôs. Dar uma volta atrás e concentrar-se na economia. Traduzir institucionalmente as suas posições políticas. 

De que formas a mudança no sistema eleitoral do Chile alterou a demografia dos eleitores?

Essa mudança aconteceu em 2012. Desde então, uma constante é que a participação política no Chile não passa de 46,47%. Há uma abstenção estrutural, eu diria. É certo que existe esse fenômeno. Agora, o que aconteceu de 2017 em diante é que tivemos sucessivas eleições. Municipais, plebiscito, constituinte, agora presidenciais…e o que vemos é que em cada tipo de eleição, determinados grupos de pessoas votaram mais ou menos. No Plebiscito, por exemplo, registramos uma participação histórica de jovens de 18 a 35 anos que nunca haviam votado antes. Ao mesmo tempo, um número similar de pessoas com mais de 73 anos que costumava participar das eleições não foi votar. Então vimos que houve uma incorporação dos jovens, mas essa incorporação também diminuiu nas eleições posteriores. Esse cenário definiu esse processo eleitoral muito bem.

Por que esses 300 mil podem ter deixado de votar?

Não temos uma explicação, mas não é o mesmo votar em eleições municipais, para governador ou presidente e votar em um plebiscito. O plebiscito tem um conteúdo programático, propõe uma nova Constituição. Talvez seja muito mais atrativo de votar do que simplesmente ter que eleger certo candidato. Talvez essa seja uma das explicações.

Depois da alta participação registrada no plebiscito, se esperava uma alta participação agora. Por que isso não aconteceu?

Porque chegamos ao nosso maior nível de participação com o plebiscito. O plebiscito foi uma exceção. Em processos normais, isso não acontecerá. 

Por que a alta participação nas ruas em 2019 não se converteu em uma alta participação nas urnas agora?

De fato houve uma participação muito grande nas manifestações. Logo depois, chegou a pandemia, e entramos em um confinamento muito grande. Creio que isso desmobilizou, de alguma forma. Mas são dois fatores. A impressão é que as manifestações de 2019 estão muito mais ligadas à eleição do plebiscito do que a essas eleições. O plebiscito foi o clímax das manifestações de 2019. Depois dele, voltamos ao normal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.