Vitória de marido levaria Cindy de volta à cidade que a desprezou

Mulher de McCain decidiu viver no Arizona após ser recebida com frieza em Washington

Jodi Kantor e David M. Halbfinger, O Estadao de S.Paulo

26 de outubro de 2008 | 00h00

Cindy McCain era nova em Washington e ainda não completara 30 anos quando compareceu a um almoço de esposas de congressistas e descobriu um problema com seu crachá. Ele estampava o nome de "Carol McCain", a admirada esposa que John McCain havia deixado para casar-se com Cindy, para a desaprovação de muitos em Washington.Temendo que a gafe tivesse sido intencional, ela se esgueirou para uma mesa meio vazia que não chegou a encher. "Ninguém queria sentar-se à sua mesa", disse Barbra Ross - uma amiga que não ficou surpresa quando Cindy anunciou, alguns meses depois, que estava se mudando de volta para o Arizona. "Parecia coisa do colegial."Hoje, em campanha, ela tem participado de relativamente poucos eventos solo, concede entrevistas com relutância - recusou-se a falar para esta reportagem - e, ao apresentar o marido em comícios, oferece poucas das anedotas de animação que são mercadoria-padrão de esposas de políticos. Quando termina, ela fica em silêncio atrás dele, às vezes com um sorriso aprovador, às vezes parecendo tensa.Desde o início, o casamento de Cindy foi definido pelas ambições do marido e, apesar das experiências muitas vezes dolorosas na vida política, ela faz tudo que pode para ajudá-lo.Quando a campanha de McCain recentemente aumentou os ataques contra Barack Obama, o rival democrata, Cindy também partiu para a ofensiva com surpreendente intensidade. No dia seguinte ao segundo debate presidencial, que não modificou a situação de McCain nas pesquisas, ela interrompeu uma entrevista que o marido dava à Fox News para atestar as virtudes dele.Cindy, de 54 anos, descreve-se como a melhor amiga de seu marido, apesar de, nas últimas décadas, eles terem vivido a maior parte do tempo separados: ela no Arizona, ele em Washington. Inicialmente, ela parecia a parceira política ideal, dando ao marido um Estado para se eleger, dinheiro (ela é herdeira da Anheuser-Busch, a maior distribuidora de cerveja dos EUA)e contatos que impulsionaram sua carreira política.Mas, na medida em que os anos passavam, ela se tornou um ônus. Cindy teve um papel no escândalo da empresa de poupança e empréstimo de Charles Keating - em meio ao qual McCain foi acusado de ter recebido suborno e de favorecer o banqueiro - e, justo quando o marido estava reabilitando sua reputação, foi apanhada roubando drogas de sua organização humanitária para alimentar seu vício em analgésicos.FORTUNAEla possui uma vasta fortuna que coloca os McCains à parte da maioria dos americanos, um problema a mais numa corrida presidencial que se articula em torno de ansiedades econômicas. Ela pode ser imprecisa: diversas vezes ela disse ser filha única, por exemplo, apesar de ter dois meio-irmãos, e forneceu detalhes discrepantes sobre uma missão humanitária em Ruanda durante o genocídio de 1994.Desde o começo, John e Cindy McCain tiveram experiências inteiramente diferentes em Washington. Ele era o mais popular dos congressistas novatos de 1983, com o passado mais heróico, as piadas mais engraçadas e, de seu tempo como elemento de ligação do Senado com a Marinha, os contatos mais poderosos.Cindy tinha 28 anos, quase duas décadas mais jovem que o marido e apenas cinco anos mais velha que o primogênito dele. "Cindy era um pouco estrela pela fama de John e a força da personalidade dele", disse Dianna Dunn, que convivia socialmente com o casal.SOMBRACarol McCain, a ex-mulher, ainda era uma presença no cenário social, trabalhando na Casa Branca de Ronald Reagan e como planejadora de eventos. Todos conheciam sua história: ela ficou solidária com o marido durante seus anos de cativeiro, jamais comentando com ele um acidente de carro que a debilitara - Carol teve as duas pernas esmagadas, o baço perfurado, quebrou um braço e a bacia. Passou seis meses numa cama de hospital. Nos dois anos seguintes, passou por 23 cirurgias. Alguns anos depois, McCain a deixou por uma mulher mais jovem e mais rica.Rejeitada pelas confrarias de esposas de congressistas, Cindy McCain tentou fazer amizade com as assessoras de seu marido. "Ela parecia solitária", disse Lisa Boepple, uma ex-chefe de gabinete. Mas "era a esposa de John, por isso não queríamos realmente circular por aí com ela".Cindy anunciou que estava voltando para Phoenix para iniciar uma família, mas alguns amigos detectaram outras razões. "Acho que Cindy tomou uma decisão intelectual: poderia ficar e combater isso ou partir e fazer coisas mais produtivas", disse Ross, a amiga em sua terra.Ela se ocupou da ONG American Voluntary Medical Team, instituição humanitária que fundou para fornecer equipamento médico e expertise a alguns dos lugares mais carentes do mundo, como Micronésia, Vietnã e Kuwait nas semanas seguintes à Guerra do Golfo.Quando Cindy visitou Bangladesh após um tufão, ela parou num orfanato fundado por Madre Teresa, que não estava presente durante a visita. Retornou com dois bebês e informou o marido de que eles adotariam um deles.Mas em 1994 Cindy dissolveu a instituição após admitir que era viciada em analgésicos e havia roubado medicamentos controlados dela. "Os comprimidos me faziam sentir eufórica", disse.O escândalo estourou justo quando seu marido estava tentando reabilitar sua reputação. Ele não sabia que a esposa era viciada, segundo disse.Cindy disse que as calúnias durante a disputa presidencial do marido em 2000 - ele foi acusado da paternidade de uma criança negra, uma referência distorcida à sua filha de Bangladesh - a deixou nervosa com a política.Observadores daquela campanha e da atual dizem que ela parece diferente desta vez - mais reservada, mais tensa, super magra. Ela raramente faz campanha longe do marido, e mesmo assim suas interações nos eventos parecem com freqüência breves e formais.Durante os seminários na temporada das primárias que John McCain realizava na traseira de seu ônibus, Cindy McCain sentava-se na frente. De vez em quando, ela se reunia a ele, sorrindo e falando pouco. Fisicamente, ela parece frágil: ela sofre de enxaqueca, circulou de muletas no ano passado após uma lesão no joelho e, recentemente, usou um protetor de pulso por causa de uma lesão por apertos de mão.Em entrevistas, algumas declarações de Cindy parecem questionáveis. Ela conta freqüentemente como se mudou para a Califórnia, deixando os filhos em casa, por quatro meses, em 2004, para se recuperar de um derrame que a deixou incapaz de falar ou andar. Mas reportagens noticiosas da época indicam que ela teve poucos embaraços discerníveis. Ela deu entrevistas quatro dias depois, compareceu a um jogo de beisebol com o marido e um jornalista algumas semanas mais tarde, e falou num evento da Câmara de Comércio de Tempe, Arizona. "Depois de um mês, eu me sinto ótima", disse na época.

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