Vitória de Obama não encerra racismo nos EUA, dizem ativistas

A eleição de Barack Obama como primeiro presidente negro dos Estados Unidos deve estimular no exterior a imagem dos EUA como uma terra de oportunidades para todos. Mas alguns analistas acham que esse feito histórico na verdade pode prejudicar o combate à desigualdade racial no país, onde até a década de 1960 os negros do sul do país eram proibidos de votar. Mais de 55 milhões de pessoas votaram em Obama, um senador que é filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas. Sua vitória sobre o republicano John McCain foi obtida graças ao apoio de uma ampla variedade de grupos e setores demográficos. A força de Obama entre os jovens de todas as raças, num país onde o eleitorado jovem e não-branco está crescendo, parece sugerir que o fator racial vai gradualmente sumir da política norte-americana. "Sua eleição demonstra a extraordinária capacidade da América de se renovar e se adaptar a um mundo em mutação", disse o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan. Mas vários comentaristas disseram que o resultado eleitoral não muda em nada a desigualdade racial. "Há uma aceitação entre amplos segmentos da população de que um afro-americano qualificado (Obama) pode ser aceito no cargo mais elevado", disse Earl Ofari Hutchinson, autor de um recente livro sobre raça e política. "Mas isso não faz com que os problemas sumam magicamente para a pessoa média de cor. Nada mudou e para muita gente os estereótipos negativos continuam sendo os mesmos." Chuck D., considerado por muitos o padrinho do rap engajado, disse que a eleição de Obama pode mudar radicalmente o debate racial nos EUA, mas que isso pode ter um lado ruim. "As pessoas dirão: 'Vocês já têm um presidente negro, então está tudo bem'. Mas isso não apaga a discussão (racial) que é preciso ter", disse Chuck D., da banda de rap Public Enemy. Em uma entrevista, ele alertou para que Obama não vire uma "arma de distração em massa", que impeça a solução dos problemas dos afro-americanos. Especialistas discordam sobre a causa das disparidades entre a maioria branca e a minoria negra, que representa cerca de 13 por cento dos 300 milhões de habitantes dos EUA. Na média, os afro-americanos ganham menos, ficam mais desempregados e enfrentam maior taxa de mortalidade infantil e menor expectativa de vida. Também têm mais chances de serem condenados penalmente e de passarem mais tempo na cadeia do que outros grupos raciais. Uma classe média negra floresceu nos EUA desde que o movimento dos direitos civis, nas décadas de 1950 e 60, acabou com o brutal sistema de segregação racial no sul, abrindo caminho para leis que estenderam o direito de voto a todos os negros dos EUA. Mas muitos negros de classe média dizem que, apesar do seu sucesso profissional e financeiro, a raça continua sendo um fator significativo, entranhado nas interações sociais e profissionais. A eleição em si não elimina essas disparidades, mas pode alterar a forma como elas são vistas, e isso pode fazer a diferença, na opinião de Cynthia Tucker, colunista do Atlanta Journal-Constitution e vencedora do prêmio Pulitzer. "Um governo Obama não prenuncia o fim do racismo na América. Obama não é 'pós-racial'. Ele não é o messias que está vindo acabar com a intolerância e a desigualdade para sempre. Ele será apenas o presidente." Ao mesmo tempo, a eleição de Obama pode alterar a auto-imagem dos afro-americanos. "Não sei se esta eleição muda alguma coisa imediatamente. Mas uma coisa que muda é o estado de espírito. Os afro-americanos são cidadãos (há gerações), mas há agora uma verdadeira sensação de que tudo é possível", disse Roberts.

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