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Vitória de Trump e guerra ao EI dá à Guarda Revolucionária chance de retomar poder no Irã

Presidente eleito ameaça rever acordo nuclear assinado em 2015 em troca do fim de sanções econômicas, o que beneficiaria o grupo de linha dura

O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2016 | 05h00

ANCARA - A vitória de Donald Trump, nos EUA, e a  guerra contra o Estado Islâmico deram à Guarda Revolucionária do Irã a oportunidade única de reaver o poder.

Posta de lado depois que o acordo nuclear foi alcançado entre os líderes reformistas, o governo do presidente americano, Barack Obama, e outras nações, a Guarda Revolucionária está determinada a retomar sua posição na complexa estrutura do governo xiita iraniano. 

Trump disse durante a campanha que ele poderia abandonar o acordo de 2015 que conteve as ambições nucleares do Irã em troca do levantamento das sanções econômicas. Sua dura posição, em contrate com o ramo de oliva estendido por Obama, deve fortalecer os linhas-duras que se beneficiam de uma economia que exclui a competição estrangeira.

Além disso, a Força Quds, que comanda a política externa da Guarda Revolucionária, teve um papel crucial nos campos de batalha no Iraque, ampliando a aprovação interna da Guarda.

"Trump e os militantes do Estado Islâmico foram um presente de Deus para a Guarda Revolucionária", disse à agência Reuters um funcionário de alto escalão do governo iraniano em condição de anonimato.

"Se Trump adotar uma política hostil com relação ao Irã ou acabar com o acordo, os linhas-duras, particularmente a Guarda Revolucionária, serão beneficiados com isso", disse o funcionário reformista.

Eleito com uma ampla margem em 2013 com a promessa de acabar com o isolamento diplomático e econômico do Irã, o pragmático presidente Hassan Rouhani tem lutado para reconectar a economia iraniana ao mercado mundial e atrair investimentos estrangeiros.

Mas incerteza sobre o acordo nuclear, as sanções unilaterais dos EUA, as questões trabalhistas e os casos de corrupção têm emperrado os esforços para ressuscitar a economia, causando preocupação do líder supremo aiatolá Ali Kahmenei, que põe a culpa no governo. 

Profundamente leal a Khamenei, a Guarda Revolucionária foi criada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica de 1979. A Guarda Revolucionária começou a ter envolvimento com a economia após a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando o establishment clérigo permitiu que investisse nas principais indústrias iranianas.

Envolvido em vários setores de negócios, desde energia a turismo e produção de automóveis, o império da Guarda Revolucionária cresceu depois que ela investiu bilhões de dólares nos projetos que acabaram sendo abandonados pelas companhias petrolíferas ocidentais em razão das sanções impostas para frear as ambições nucleares de Teerã.

Tentando limitar a influência da Guarda Revolucionária, o governo de Rouhani embargou ou cancelou grandes projetos sob seu comando, incluindo um acordo de US$ 1,3 bilhão com a Companhia Nacional Iraniana de Gás, em março de 2014.

Sob o acordo nuclear, as sanções internacionais foram levantadas em janeiro, abrindo a economia iraniana, mas ameaçando a base de poder da Guarda Revolucionária. Agora, o grupo vê a oportunidade de retomar sua posição na hierarquia iraniana.

"A Guarda usará a vitória de Trump para convencer os líderes religiosos a dar-lhe mais respaldo político e econômico", disse o funcionário do governo iraniano. "Se Trump afastar os investidores estrangeiros do Irã, então a Guarda terá restaurado seu poder econômico", disse o funcionário reformista ligado a Rouhani.

"Mais envolvimento econômico da Guarda significa um maior risco para o investidor estrangeiro. Isso afetará os planos de crescimento econômico de Rouhani e dará mais poderes políticos para ela e seus aliados de linha dura", acrescentou o reformista.

Membros de alto escalão da Guarda Revolucionária e suas companhias permanecem sob sanções unilaterais dos EUA por, segundo Washington, apoiarem "atos de terrorismo".

Irritada com a perda de poder econômico, a Guarda acusou Rouhani de favorecer empresas estrangeiras em vez das iranianas, exigindo um maior papel na economia e a implementação da visão de Khamenei de um Irã auto-confiante.

"As companhias ligadas à Guarda Revolucionárias não podem competir com as empresas estrangeiras. Então, elas querem uma limitada presença de negócios de outros países no Irã", disse Mohammad Ali, um exportador com base no Irã, acrescentando: "Dinheiro significa poder". / REUTERS

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