Vitória militar não significará solução definitiva

A pressão internacional sobre o governo de Sri Lanka por uma trégua na luta contra os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE, na sigla em inglês) pode ter provocado um efeito contrário. Diante da pressão da ONU, da Cruz Vermelha, da Índia e dos doadores internacionais, o presidente cingalês, Mahinda Rajapaksa, parece comprometido em aumentar a ofensiva para encerrar a guerra de uma vez por todas. Mas ilusão de que uma vitória final pode ser garantida não persistirá por muito tempo. Mesmo que o líder do LTTE, Velupillai Prabhakaran, engula a cápsula de cianureto que carrega em seu pescoço, a causa que ele violentamente sequestrou e distorceu - justiça, igualdade e autonomia para a minoria tâmil - não desaparecerá de um momento para outro.Mesmo que algumas centenas de guerrilheiros obstinados na ironicamente denominada "zona segura" se rendam ou sucumbam ao poder de fogo militar superior do governo, a memória dos horrores experimentados por dezenas de milhares de civis encurralados junto com eles não se dissipará rapidamente.O governo de Sri Lanka cometeu erros fundamentais. Em geral, governos legitimamente eleitos e constituídos devem se comportar melhor que os grupos terroristas ou insurgentes que os enfrentam. Isso significa agir legalmente, humanamente e proporcionalmente. É nisso que repousa sua autoridade.Outro erro de Rajapaksa foi acreditar que uma solução militar era possível e até desejável. Essa ilusão foi desfeita por diversas outras experiências, como na Irlanda do Norte, no Chipre e no Nepal.Supondo que a luta atual no norte do país termine, o Sri Lanka ainda enfrentará uma colheita amarga nos próximos anos por causa do sentimento de vingança, do ressentimento, da agitação política, da alienação social e, do jeito que as coisas estão, da perspectiva de uma retomada da violência em um nível mais baixo, incluindo atentados suicidas. Segundo o International Crisis Group, "violência, instabilidade política e relutância em devolver o poder às administrações provinciais" ainda marcam o país. A ajuda internacional que será dada à reconstrução e ao desenvolvimento do Sri Lanka só deve ser liberada se Colombo garantir um nível básico de segurança, acabando com a impunidade e violações de direitos humanos.Um terceiro erro básico do governo foi acreditar que, de alguma maneira, o Sri Lanka pudesse avançar sozinho, que pudesse fazer o que bem quisesse, desconsiderando a lei e a opinião pública internacionais. A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) está liderando apelos por uma comissão de inquérito da ONU que investigue supostos crimes de guerra cometidos pelo governo cingalês. EUA, Grã-Bretanha, França, agências da ONU e outros aliados tradicionais de Sri Lanka têm visto seus repetidos apelos por uma paralisação permanente das hostilidades serem desprezados por Rajapaksa.Boatos dão conta de que o presidente cingalês estaria contando com US$ 1 bilhão em ajuda externa para recuperar o país. Com a crise econômica, certamente ele precisará de ajuda internacional para limpar a sujeira criada pela "solução militar" destrutiva de seu governo.*Simon Tisdall é editor assistente e colunista de assuntos internacionais do jornal britânico The Guardian

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