Hector Retamal / AFP
Hector Retamal / AFP
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vitórias da democracia 

A força da democracia está também na economia, resta saber se a China é uma exceção

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 03h00

A causa da democracia teve duas vitórias na semana que passou. As autoridades de Hong Kong decidiram suspender a proposta de lei que causou os maiores protestos desde a devolução do território à China, em 1997, e o regime russo recuou, pela primeira vez, diante de manifestações contra mais uma prisão injusta de um jornalista

Não são desfechos comuns nesses países. Integrantes do núcleo duro da governadora de Hong Kong, Carrie Lam, que obedece às ordens de Pequim, concluíram que não é possível levar adiante no LegCo, como é conhecido o Parlamento da Região Administrativa Especial, o projeto de lei que facilita as extradições para a China.

Isso depois de milhares de manifestantes tomarem as ruas ao redor do LegCo e desafiarem o batalhão de choque da polícia. O momento é delicado: o 30.º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, que começou da mesma forma, com jovens ocupando as ruas.

Em 2014, manifestações por mais democracia em Hong Kong foram esmagadas pela polícia, e nenhuma concessão foi feita. É verdade que as manifestações, desta vez, receberam o apoio de empresários e gestores do mercado financeiro, que afirmam que o risco de deportação provocaria uma insegurança jurídica prejudicial aos investimentos. Escrevo de Pequim, e o governo daqui não está disposto a abrir mais uma frente de problemas, além da guerra tarifária deflagrada pelo presidente Donald Trump.

No dia 7, policiais russos prenderam em Moscou o jornalista Ivan Golunov, que vinha publicando no site Meduza reportagens investigativas sobre a corrupção na prefeitura de Moscou. Como costuma ocorrer nesses casos, as autoridades não assumiram que seu “crime” era expor o governo, mas montaram uma acusação de crime comum contra Golunov, no caso, tráfico de drogas sintéticas. Os três principais jornais independentes da Rússia, Kommersant, Vedomosti e RBK, lançaram em suas páginas a campanha “Nós somos Ivan Golunov” e centenas de pessoas, sobretudo jornalistas, mas não apenas, passaram a fazer vigília em frente à delegacia, usando também esse slogan. 

A comoção chegou até os veículos que apoiam o regime. Margarita Simonian, editora-chefe do canal RT, porta-voz informal do Kremlin, exigiu respostas às suspeitas lançadas sobre o caso. Na terça-feira, o jornalista foi solto e oficiais da polícia envolvidos no caso foram afastados. Aqui também há uma ligação entre a incomum sensibilidade do regime e preocupações com os negócios. A prisão de Golunov coincidiu com a realização do Fórum Econômico de São Petersburgo. Destinado a atrair investimentos, o evento foi um fracasso. Nenhum investidor compareceu. 

Alexei Koudrin, ex-ministro das Finanças, atribuiu a falta de apetite dos investidores na Rússia à “ausência de regras estáveis”. Uma fonte ligada ao governo disse ao jornal Le Monde: “Sem a independência da Justiça e da polícia, não nos sentimos protegidos. E só piora. A gente tem a impressão de que o Kremlin não controla mais essa escalada dos serviços de segurança, que ele próprio incentivou.” 

Esse é o drama dos regimes autoritários: eles não cerceiam apenas a liberdade (o que não seria pouco), mas também a prosperidade. Em contrapartida, na França, depois de seis meses de crise causada pelos protestos dos “coletes amarelos”, o governo recuperou a iniciativa. As reformas começaram a surtir efeito. O poder aquisitivo aumentou, em 2018, e o desemprego atingiu o nível mais baixo dos últimos dez anos. 

“Ouvimos o recado de exasperação fiscal que os franceses nos enviaram”, disse ao Parlamento o premiê, Edouard Philippe, vinculando os cortes de impostos aos protestos. A vitalidade da democracia é também a da economia. Estamos vendo até que ponto a China pode ser uma exceção. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.