Vitórias épicas e vitórias enganadoras

Se conseguir superar Chávez na votação de hoje, Capriles será o autor de um feito democrático sem precedente na América Latina

ENRIQUE, KRAUZE, BLOOMBERG, É HISTORIADOR, AUTOR DE , REDENTORES, IDEIAS, PODERES , NA AMÉRICA LATINA, ENRIQUE, KRAUZE, BLOOMBERG, É HISTORIADOR, AUTOR DE , REDENTORES, IDEIAS, PODERES , NA AMÉRICA LATINA, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h08

Análise

Se Henrique Capriles vencer as eleições de hoje na Venezuela, conseguirá um feito democrático sem precedentes na história da América Latina.

Possivelmente nenhum outro candidato da oposição tenha enfrentado com tanto vigor uma força como a representada por Hugo Chávez. Um governo que não emprega a violência física como política de Estado, mas exerce outro tipo de violência, a da ameaça e da coerção, multiforme e opressiva. Seu poder vem das urnas sob o estreito controle das armas - as suas armas.

Na Venezuela, os democratas precisam voltar atrás, para antes do começo: precisam restaurar o verdadeiro significado daquilo que, hoje, é uma democracia corrupta. O objetivo explícito de Chávez é governar até pelo menos 2030, quando então terá 76 anos. E, se conseguir chegar lá, sem dúvida vai querer continuar. Mas, diferentemente de Fidel Castro em Cuba, dos sandinistas ou dos antigos ditadores sul-americanos, como José Gaspar Rodríguez de Francia do Paraguai e Juan Vicente Gómez da Venezuela, Chávez usa astutamente a democracia para acabar com a democracia.

E vem conseguindo passo a passo, instituição por instituição, impondo seus planos e representantes ao Legislativo, ao Judiciário e aos organismos eleitorais. Se não concluiu sua obra de demolição, é porque um amplo setor da sociedade venezuelana não esqueceu o significado de liberdade.

Numa disputa desigual, porque Chávez trata como propriedade privada os recursos públicos e os utiliza em abundância em benefício próprio, esse setor demonstrou um admirável espírito de unidade e tem em Capriles um líder jovem, sensível e idealista. As possibilidades de vitória são concretas, mas o adversário, apesar - ou em razão - da sua doença, é formidável.

Chávez não é apenas um caudilho: é um messias. Para se preparar para essa distorcida dimensão religiosa, abusou dos palanques da mídia. Durante muitos anos, apareceu no programa de domingo Alô, Presidente, um reality show de seis horas de duração, no qual declamava monólogos, dançava, cantava, recitava, lia cartas, declarava o seu amor ao povo e criticava violentamente os "pitianques" (imitadores dos ianques, os supostos aliados dos Estados Unidos na Venezuela). Ele também dava aulas de socialismo do século 21, lembrava de cenas da sua autobiografia - que em sua interpretação peculiar é a encarnação da história venezuelana - e emitia decretos terríveis.

Diante dos membros do seu gabinete, todos de vermelho, calados e obedientes como escolares numa sala de aula, ele ditava expropriações, movimentos de tropas, insultos diplomáticos e políticas públicas. Muitas pessoas na sociedade venezuelana rejeitavam este espetáculo. Mas a maioria dos seus eleitores comemorava.

Para eles, Chávez é a reencarnação do herói da independência Simón Bolívar e até mesmo o representante de Cristo na Terra, agora mais do que nunca, porque Chávez fez da sua terrível doença num calvário público.

Avanços. Além dessa encarnação, está o seu papel social. Um número considerável de pobres venezuelanos é grato a ele pelas missões que criou em 2003.Embora muitos destes programas tenham esbarrado em graves problemas operacionais e não tenham a finalidade de promover a autonomia do povo, mas sua dependência do governo, os chavistas não as veem desta maneira.

O monopólio virtual da verdade pública, de que Chávez desfruta desde que ampliou seu aparato de mídia estatal, mascara a realidade. Milhões de venezuelanos consideram a sua palavra o espelho da verdade, particularmente no caso dos funcionários públicos, cuja renda depende - ou pelo menos assim acreditam - da sua generosidade.

A ocultação da verdade tem sido maciça. Será que os venezuelanos avaliam o incrível desperdício de quase US$ 700 bilhões que passaram pelos cofres da estatal petrolífera PDVSA, outrora um exemplo maior de modernização do que a Petrobrás? É impossível saber.

Muitos entendem que a Venezuela se encontra numa grave crise: as taxas da inflação e da criminalidade estão entre as mais elevadas da América do Sul e há constante escassez de produtos. Os serviços básicos também são caóticos em consequência das perseguições no setor privado, da ineficiência e da corrupção.

A campanha de Capriles tem sido corajosa e conciliadora. Suas propostas procuram restaurar o bom senso financeiro e proteger o progresso social. Chávez o acusou de querer o fim das missões; Capriles insiste que só interferiria para melhorá-las.

Chávez o mostra como a reencarnação da velha guarda política da Venezuela; Capriles mostrou que as más práticas do chavismo se assemelham às da chamada Quarta República e prometeu que o seu governo as corrigirá.

Chávez o menospreza incessantemente com insultos grosseiros e cometeu o sacrilégio de chamá-lo de nazista, embora saiba que os bisavós de Capriles pereceram nas mãos dos nazistas. Capriles não se abalou.

Tudo pode acontecer, até mesmo uma explosão da violência endêmica que assombra a história venezuelana. A fascinação por Chávez doente e o fato de o seu controle se estender sobre todo o aparato do Estado poderá fazer com que ele saia vencedor do pleito.

Se isso acontecer, a oposição precisará seguir em frente sem fraquejar e sem parar. Chávez poderá triunfar, mas a sua vitória será enganadora e, depois de sua morte, as divisões no interior do seu grupo e as pressões internas e internacionais poderão preparar o terreno para um retorno à democracia plena. Esse acontecimento terá o efeito adicional de precipitar a transição cubana, levando-nos mais perto do surgimento - sem precedentes na história - de uma América Latina inteiramente democrática.

Tal resultado, que até pouco tempo atrás podia parecer utópico, estará perto, caso Capriles ganhe. Testemunhamos este resultado antes, no referendo de dezembro de 2007, quando os venezuelanos, contrariamente a todas as previsões, rejeitaram um plano de reforma constitucional que teria transformado o país em uma nova Cuba.

Tenho fé nesse milagre cívico. E espero que essa vitória seja o prenúncio não só do retorno da democracia, mas também de algo muito mais importante e necessário: a reconciliação da família venezuelana, hoje dividida por um ódio ideológico que é estranho a ela, que a envenenou por quase 15 anos, e asfixiou toda possibilidade de harmonia.

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