Viúvo de Benazir é candidato à Presidência do Paquistão

Zardari concorrerá ao cargo depois da renúncia do ex-presidente Musharraf, ameaçado de impeachment

Agências internacionais,

22 de agosto de 2008 | 11h24

O Partido Popular do Paquistão, que lidera a maioria no Parlamento do país, anunciou nesta sexta-feira, 22, que o viúvo da ex-primeira ministra Benazir Bhutto, Asif Alí Zardari, será o candidato à Presidência após a renúncia do ex-presidente Pervez Musharraf. A porta-voz da legenda, Sherry Rehman, afirmou que a indicação de Zardari foi unânime. Segundo a Comissão Eleitoral, a escolha do novo chefe de governo será realizada no dia 6 de setembro.   Veja também: Eleição paquistanesa é marcada para 6 de setembro   Zardari é viúvo da ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, morta em um atentado no fim do ano passado. Apesar de ainda não ter respondido, Zardari já havia manifestado seu interesse pelo cargo. "Zardari agradeceu ao Partido Popular do Paquistão, do qual é co-presidente, e disse que anunciará sua resposta dentro de 24 horas", disse a porta-voz.   Um colégio eleitoral formado pelos legisladores do Parlamento e o Senado nacionais e das quatro assembléias provinciais será o encarregado de designar o futuro presidente, após a renúncia de Musharraf na última segunda-feira . Ele estava no poder desde um golpe de Estado, em 1999, e vinha sofrendo pressões da coalizão que governava o país desde fevereiro, que ameaçava pedir o seu impeachment. Seu cargo foi ocupado interinamente pelo presidente do Senado, Mohamadmian Sumro. O secretário da comissão, Kanwar Dilshad, disse que as candidaturas poderão ser registradas a partir do próximo dia 26.   O ascensão do nome de Zardari ocorre em meio a crescentes divergências entre os membros da coalizão. Unidos contra o presidente, os parceiros não se entendem sobre como devolver os cargos de juízes afastados por Musharraf durante um estado de emergência, no fim do ano passado. O ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, líder de um partido menor da coalizão, a Liga Muçulmana do Paquistão, ameaçou deixar o governo caso não haja um acordo para a volta dos magistrados até o meio da próxima semana.   O destino dos 60 juízes, entre eles o ex-presidente da Suprema Corte Iftikhar Mohammed Chaudhry, tornou-se crucial para o futuro da administração. Sharif acusa Zardari de não querer a volta de Chaudhry, pois este poderia reverter uma anistia concedida por Musharraf a Zardari e a Benazir Bhutto no ano passado, em uma investigação de corrupção. Com a anistia, Zardari se livrou de processos que duravam anos e Benazir pôde encerrar seu exílio e voltar ao país. Zardari afirma que as acusações tinham apenas motivação política.   Uma vitória seria uma grande virada na carreira de Zardari, de 52 anos, outrora apelidado de "Senhor 10%", por supostos desvios durante o governo de sua mulher. Investigadores já afirmaram que Zardari possui uma fortuna de US$ 100 milhões (R$ 161 milhões) em depósitos bancários e luxuosas propriedades no exterior. Grande parte do dinheiro seria fruto de propinas pagas por empresas estrangeiras que atuam no Paquistão.   Em 1998, um juiz indiciou Zardari por lavagem de dinheiro. Porém ele, que nega as acusações, nunca foi julgado nesse caso, pois estava então preso no Paquistão. Zardari já passou um total de 11 anos na cadeia. Ele foi solto da última vez após pagar fiança, em 2004. Desde então viveu a maior parte do tempo em Nova York, até voltar ao Paquistão após o assassinato da mulher. Para alguns analistas, a eventual chegada de Zardari à Presidência poderia estremecer as relações entre o governo e os poderosos militares. O presidente não apenas é o comandante das Forças Armadas, mas também tem o poder para remover e nomear os chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.   Acordo Mais cedo, o líder da Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N) e membro da coalizão que lidera o Parlamento, o ex-premiê Nawaz Sharif, anunciou que na próxima segunda-feira será apresentada uma resolução para restituir os cargos dos juízes expulsos pelo ex-presidente Pervez Musharraf. A questão dos juízes - incluindo a reinstalação do presidente da Suprema Corte, Iftikhar Chaudhry -, tornou-se ponto principal de polêmica entre as duas maiores frentes da coalizão durante a busca de um nome para suceder Musharraf na Presidência. Os juízes foram afastados quando Musharraf impôs o estado de emergência no país, mas a restituição contava com a resistência de Zardari.   Em entrevista coletiva, Sharif disse que, após ser debatida, a resolução precisa ser aprovada na próxima quarta-feira, "que deve ser o dia da restituição dos juízes". Porém, o Supremo também apurava um caso contra a anistia que Musharraf havia concedido à antiga líder do PPP, a falecida Benazir Bhutto, e a seu marido, que permitiu o retorno de ambos do exílio. Zardari foi alertado que o presidente da Suprema Corte poderia revogar a anistia se for reempossado.   O PPP se mostrou duvidoso quanto à restituição dos juízes, uma decisão que o PML-N exige como condição para permanecer no governo. A entrevista coletiva contou com a presença de Sharif e dos dirigentes dos dois partidos minoritários do governo, mas nenhum do PPP. Segundo sua versão, a resolução que será apresentada no Parlamento vai ser redigida por um comitê formado por membros do PPP e do PML-N. Os dois partidos haviam se comprometido, no último dia sete, a reintegrar os juízes em seus cargos "imediatamente após" a saída do poder de Musharraf, que renunciou na segunda-feira.   Enquanto o governo não se entende, a violência militante aumenta. Os soldados paquistaneses mataram 20 militantes do Taleban nesta sexta-feira, durante uma operação perto da fronteira com o Afeganistão, segundo funcionários. Um dia antes, dois atentados suicidas mataram mais de 65 pessoas em uma grande fábrica de armas perto de Islamabad. Segundo a polícia, 15 insurgentes foram mortos nesta sexta-feira após atacarem um posto de controle perto da cidade de Hangu, no noroeste.   Matéria ampliada às 11h55.

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