'Vivemos o momento mais perigoso desde a Guerra Fria'

Para ativista símbolo da luta contra a URSS, o presidente russo, Vladimir Putin, deve deixar de 'ser um garoto mimado'

Entrevista com

Lech Walesa, líder do movimento polonês Solidariedade

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2014 | 02h00

Para Lech Walesa, líder do movimento polonês Solidariedade - que, nos anos 80, foi um dos pilares da resistência à União Soviética -, foi na Polônia que o Muro de Berlim começou, de fato, a ruir. Defensor da União Europeia (UE), Walesa prega diálogo diante da crise entre Ocidente e Rússia, mas diz que o Kremlin "declarou uma guerra ao mundo". Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Após 25 anos, há uma nova crise entre a Rússia e o Ocidente. Como o sr. avalia isso?

Vivemos o momento mais perigoso desde a Guerra Fria. A mentalidade política russa está atrasada em 30 anos. Moscou chega a fazer ameaças militares e até a lembrar que é uma potência nuclear. O que aconteceu na Ucrânia foi uma declaração de guerra contra todo o mundo. Quando a União Soviética desapareceu, o acordo foi de retirar as armas nucleares que estavam na Ucrânia e devolvê-las a Moscou. Em troca, Kiev ganhou a garantia de que Europa e EUA assegurariam sua independência. Esse acordo foi jogado no lixo em 2014. Ninguém quer destruir Moscou, mas temos de ajudar os russos a ter o mesmo caminho responsável da Europa.

Que recado o sr. daria a Putin?

Pare de ser um garoto mimado. Se continuarmos assim, vamos nos destruir mutuamente. Precisamos de um caminho para a paz.

Há lições do comunismo que possamos usar?

Mostre um país onde o comunismo funciona. O capitalismo pode ser problemático, mas todos crescem quando adotam regras corretas. Nenhum país comunista funcionou. É uma utopia desnecessária.

Especialistas apontam que, depois da queda do Muro de Berlim, a economia passou das mãos do Partido Comunista para empresários que se transformaram nos grandes oligarcas. Como o sr. responde a isso?

Quando a URSS entrou em colapso, nossa economia foi junto, 80% da nossa produção estava de joelhos. Existia a possibilidade de a fome voltar à Polônia. Para salvar-nos, precisávamos achar rapidamente pessoas que quisessem reiniciar a atividade industrial. Isso teve consequências negativas, mas não tivemos tempo para fazer as coisas de outra maneira.

O sr. achou há 25 anos que o Muro de Berlim cairia mesmo?

O mundo estava dividido. Muitos achavam que apenas uma guerra nuclear mudaria aquela realidade. Às vésperas da queda do Muro, políticos e até o chanceler Helmut Kohl viajaram para a Polônia. Eu era apenas um sindicalista e pude encontrá-los. Como não era diplomata, eu podia dizer as coisas como são. Lembro-me que me sentei e perguntei: vocês estão prontos para a queda do Muro e a decomposição da URSS? Um deles me disse: 'Adoraríamos ser confrontados com isso, mas isso não vai acontecer nas nossas gerações'. Eles tiveram de voltar às pressas para Berlim. Tinham tanto medo de voar em um avião alemão que pediram aos EUA para que enviassem um avião. Amadores, como eu, no entanto, sabíamos que tudo estava prestes a desmoronar.

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