Vivemos uma revolta dos fracos

Há movimentos que não conseguem competir com base nas regras comuns, por isso conspiram para eliminá-las

David Brooks/The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2014 | 02h01

A parte mais difícil de governar é o efeito que isso causa na mente dos governantes. Como disse Henry Kissinger, quando você governa não está aumentando o capital humano; mas simplesmente o reduzindo. As pessoas em posições de alto escalão veem-se muito ocupadas para conhecer novos pontos de vista fundamentais.

Também não conseguem enxergar problemas imediatos de menos importância, por isso é difícil para elas retroceder para analisar o contexto global no qual operam. Finalmente, há o problema do bunker. Os indivíduos em cargos de poder são atingidos por uma avalanche de críticas, de modo que, naturalmente, criam barreiras mentais para proteger-se do abuso. Tudo isso torna difícil o ato de governar.

Os problemas específicos que neste momento ocupam as manchetes não são cataclísmicos. A aventura do presidente russo, Vladimir Putin, na Ucrânia não é um evento histórico catastrófico. A guerra civil na Síria, apesar de sua selvageria, não é uma ameaça à vida cotidiana dos que vivem fora dali.

Esses problemas são de médio porte, mas as estruturas com base nas quais as nações operam vêm sendo ameaçadas de modo devastador. Ou seja, há certos hábitos inconscientes e normas limitadoras da conduta que sustentam nossa civilização e agora são desafiadas por uma coalizão dos fracassados.

O que estamos vendo no mundo é uma revolta dos fracos. Existem movimentos e nações frágeis acossados por contradições internas que não conseguem competir com base nas regras comuns que regem a civilização. Portanto, conspiram para pôr fim a esse conjunto de regras.

O primeiro exemplo é a Rússia. Putin carece de legitimidade. Não é capaz de oferecer bens e dignidade a seu povo. Mas tem uma enorme habilidade para agir dentro da ilegalidade e quer que o mundo todo siga a lei da selva.

Há uma norma, que no geral imperou nas últimas décadas, segundo a qual as nações poderosas não devoram tudo o que está à sua volta apenas porque assim o desejam. Mas é exatamente a norma que Putin está descaradamente pisoteando. Se o "putinismo" conseguir aniquilá-la, viveremos cada vez mais num mundo em que a imprudência é recompensada e o autocontrole é punido. Temos ainda os movimentos radicais, como o Estado Islâmico (EI). Ele pretende desencadear uma série de guerras religiosas e ter o mundo organizado por categorias religiosas.

Há uma norma, segundo a qual a política não é uma empresa espiritual com base em princípios totalitários. Os governos devem estabelecer a ordem e oferecer benefícios econômicos para sua sociedade, mas não organizar suas vidas espirituais. Essa é exatamente a norma que o EI e outros grupos jihadistas vêm tentando destruir. Se o conseguirem, o Oriente Médio evoluirá para uma guerra de 30 anos de fé contra fé.

Putin e o Estado Islâmico não são ameaças à segurança nacional americana, mas ameaças à ordem da nossa civilização. Se você está envolvido nos assuntos cotidianos de governo, provavelmente verá até que ponto Putin e o EI são fracos. E concluirá que não precisa fazer muito, pois tais ameaças inevitavelmente sucumbirão sozinhas às contradições internas. Mas a fragilidade de Putin e do EI constitui sua energia motriz; eles só precisam demolir as coisas e, se não forem confrontados, assim o farão.

As pessoas que cuidam de política externa vivem hoje à sombra da era do pós-guerra. As pessoas compreendem instintivamente que logo após a 2.ª Guerra Henry Truman, George Marshall, Dean Acheson e outros realizaram algo notável. Eles se desviaram da pressão momentânea e criaram um contexto no qual as pessoas viveriam nas décadas seguintes. Na época, a autoconfiança democrática estava em alta. Hoje, infelizmente, está em baixa. Atualmente, os maus parecem muito fortes, ao passo que os bons dão a impressão de estarem cansados. Veremos na reunião de cúpula da Otan, amanhã em Gales, se algum líder conseguirá se desviar da pressão dos acontecimentos e explicar o quão fundamental é a ameaça às normas que regem a civilização. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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