'Vivemos uma revolução dos cidadãos de confissão muçulmana'

Para filósofo e islamólogo suíço Tariq Ramadan, ataque ao 'Charlie Hebdo' pela publicação de charges de Maomé não foi a melhor resposta, mas foi a encontrada pelos radicais islâmicos

Entrevista com

Tariq Ramadan

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2015 | 05h00

Neto do fundador do movimento Irmandade Muçulmana, o egípcio Hassan el-Banna, Ramadan nasceu na Suíça e tornou-se talvez a maior autoridade acadêmica em Islã no mundo. Em entrevista ao Estado, Ramadan sobre a reação dos extremistas à publicação de charges de Maomé e do romance Soumission, de Michel Houellebecq, que imagina a França governada por muçulmanos em 2022.

O sr. sente-se ofendido pela publicação de charges de Maomé?

Desde quando houve o caso da Dinamarca, sempre tomei uma distância crítica. Mais uma vez é preciso tomar uma distância crítica. Creio que não é a melhor resposta ao que aconteceu. Mas, enfim, é a deles.

O sr. leu o livro Soumission, de Michel Houellebecq? O que o senhor pensa de seu cenário, uma França governada por muçulmanos em 2022 e sob a Sharia?

Eu sou um personagem de seu livro. Vou processá-lo porque ele me faz perder a eleição no livro, e isso não é legal (risos). Fora de brincadeira, creio que Houellebecq é alguém muito amargo, que joga com os medos e isso é perigoso. Me dizem que é só um romance, mas eu entendo que esse tipo de imaginação, que joga com os sentimentos, que expressa cenários, mas que ao mesmo tempo utiliza realidades e até personagens reais, é surfar no medo. Ele fez uma reflexão ignorante quando disse que o Islã era a religião mais ignorante. Esse livro é a continuação de uma trajetória que não é saudável.

O sr. não crê que essa marcha do domingo vai nesse sentido, é um indicativo de uma união nacional que possa perdurar algum tempo?

Não, tenho dúvidas. Creio que é uma unidade emotiva, face a um drama, e não uma unidade sábia, em torno de um projeto. É uma unidade reativa, e não de ação. Todas as proporções preservadas, é a versão dolorosa do que foi a unidade da vitória na Copa do Mundo de 1998, quando estivemos juntos para dizer algo. Mas se você observar o discurso, os posicionamentos, verá que nada foi resolvido, que tudo foi coberto pelo tempo de uma união nacional. Não quer dizer que é negativo. É possível construir algo. É preciso mais empatia, mais ponderação, mais sabedoria, e menos reatividade emocional.

É dessa forma que se pode superar a ideia, que está difundida, da guerra de civilizações?

Sim, isso é certo. Essa unidade foi um indício de que podemos superar a ideia da guerra de civilizações. Mas a ideia de alguns ao descer às ruas foi a ideia de uma unidade contra. Para a maioria foi uma unidade "contra o terrorismo que mata". Mas para alguns foi uma unidade "contra o Islã", "contra os muçulmanos", "contra os que nos impedem de viver juntos". Resta ainda a determinar quem é o "nós" que se une e por que ele se une. 

A marcha contra o Islã não era a marcha da Frente Nacional, separada?

Não apenas. A marcha da Frente Nacional era uma delas. Mas não podemos idealizar. Victor Hugo dizia que a multidão trai o povo. É preciso uma união popular, não uma unidade de multidão. Ser é 3 milhões na emoção não quer dizer ser 3 milhões na ação. Isso ainda não foi conquistado.

É o discurso da identidade nacional que continua?

Sim, é esse discurso. Eu estava na Task force criada por Tony Blair na Inglaterra quando dos atentados de 2005 em Londres. Participei por um mês e meio, o tempo de sua duração, e me dei conta de que a primeira coisa que nos falavam era sobre o "britishness". Eu me perguntava: do que vocês estão falando? Que valores europeus são esses em que os muçulmanos são estrangeiros? Esse não é só o discurso da extrema-direita. Ele se espalhou pela classe política. Eu não acreditava que veria isso nos EUA, mas chegou ao Partido Republicano pelo Tea Party, e atingiu até mesmo o discurso de alguns líderes democratas. É isso que é o mais perigoso. A minha resposta a esse discurso eu venho afirmando há mais de 15 anos, é o "Novo nós". Não nos digam que apenas temos de respeitar a lei. O "Novo nós" é baseado no que eu chamo a "integração da intimidade", quando você sente que pertence a uma pátria ou a um país. Você não pode fazer isso se estigmatiza, se acusa. É algo a construir juntos. As coisas estão avançando, estamos vivendo em longo prazo uma revolução silenciosa dos cidadãos ocidentais de confissão muçulmana, mas que será necessário ainda tempo. Eu disse em meu livro "What I Believe" que ainda serão necessárias duas gerações.

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