Vizinhos veem Brasil com papel 'chave' em combate regional ao tráfico

'Mudança de atitude' leva país a cooperar mais com vizinhos; especialistas dizem que problema das drogas 'tornou-se muito grande para ser ignorado'.

Pablo Uchoa, BBC

13 de abril de 2012 | 05h57

A 6ª Cúpula das Américas, que será realizada no fim-de-semana em Cartagena, na Colômbia, reunirá 34 chefes de Estado e de governo, mas os olhos devem estar postos principalmente em três: os líderes dos EUA, do país anfitrião e do Brasil.

As sessões tratarão de diversas áreas - entre eles, comércio, integração energética, tecnologia da informação e prevenção de desastres - mas o principal assunto entre os presidentes será, nas palavras de um diplomata colombiano aqui em Washington, "droga, droga, droga".

Nesse tema, o Brasil, segundo maior consumidor de cocaína do mundo e principal caminho para a droga que alcança a África, é visto como um parceiro-chave na região.

A presidente Dilma Rousseff se encontrará com seus colegas americano, Barack Obama, e colombiano, Juan Manuel Santos, no sábado de manhã, antes da abertura do evento, para um Fórum de CEOs.

Além disso, deve haver um encontro entre Dilma e o presidente colombiano - o que está sendo visto como um reforço da cooperação entre os países e sinal da superação de desconfianças que, no passado, fizeram do Brasil um ator hesitante na estratégia contra o tráfico de drogas no continente.

No passado, temendo abrir mão de sua soberania, "o Brasil nunca aceitou de fato a interação com os EUA nesse tema", avaliou um oficial colombiano que não quis ser identificado.

Entretanto, nos últimos anos, "o tema das drogas ficou muito importante no Brasil para ser ignorado. Por isso vemos uma mudança na atitude".

Problema crescente

O Brasil é considerado hoje o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Três anos atrás, estimava-se que a droga era usada por 900 mil pessoas. Com o recente aumento da riqueza no país, entretanto, é possível que o número tenha aumentado.

Os Estados Unidos, com quase 5 milhões de usuários de cocaína, são de longe o país que mais consome a droga.

Entretanto, esse contingente é metade do que se verificava 30 anos atrás, quando a expressão "Guerra contra as Drogas" - hoje em desuso pelo governo do presidente Barack Obama, que a considera contraproducente - já tinha dez anos.

Os EUA despejaram cerca de US$ 1,1 bilhão (R$ 2 bilhões) por ano até 2010 no chamado Plano Colômbia, financiando, treinando e apoiando o Exército colombiano para combater as guerrilhas e o tráfico.

Ao mesmo tempo, a estratégia assustou vizinhos preocupados com a soberania de suas fronteiras nacionais, como o Brasil.

Hoje, em parte pelo tamanho do problema e em parte pela política de boa vizinhança do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, a cooperação Colômbia-Brasil é maior.

Um exemplo mais aparente é a cessão de helicópteros brasileiros para operações de resgate de reféns da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), na selva colombiana.

"A doutrina do nacionalismo não vai mudar, mas é possível cooperar sem ferir as soberanias", disse o oficial da Colômbia à BBC Brasil.

Responsabilidade de todos

Em janeiro deste ano, o Brasil, a Bolívia e os EUA assinaram um acordo trilateral para controlar e erradicar a produção excedente de coca no país andino. Segundo o acordo, os EUA proverão técnicos e equipamentos de satélite, o Brasil, a capacitação, e a Bolívia, pessoal e apoio logístico.

O assessor especial da Casa Branca para América Latina, Dan Restrepo, diz que acordos deste tipo são bons exemplos de cooperação na região. "O acordo inclui o Brasil na equação de uma maneira que o país, francamente, nunca esteve no passado", avalia.

"À medida que o consumo de drogas se alastra pelas Américas, a resposta e a responsabilidade de lidar com esse desafio também têm de se expandir."

A Casa Branca tem admitido a sua "responsabilidade" no aumento do consumo e, por consequência, na violência causada pelo tráfico de drogas no continente - por outro lado, tem reiterado que a responsabilidade deve ser "compartilhada".

"À medida que as implicações do combate às drogas aumentam, há um debate nas Américas, no sentido de como podemos construir o tipo de instituições, de forças policiais, de sistemas Judiciários, de prisões, de sistemas de saúde pública necessários para lidar com o desafio", defende Restrepo.

Uma proposta que tem ganhado a simpatia de intelectuais, especialistas e autoridades latino-americanas é a de descriminalizar o uso de drogas na região.

Um dos simpatizantes é o presidente guatemalteco, o general reformado Otto Pérez Molina, para quem anos de combate às drogas mostraram o fracasso das atuais políticas.

Ex-presidentes, como Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Vicente Fox e Ernesto Zedillo (México) e Cesar Gaviria (Colômbia), também já expressaram seu apoio a propostas de descriminalização ou até legalização - embora só o tenham feito após sair do poder.

Há dúvidas sobre o quanto a proposta caminharia sem o apoio americano. "A política dos Estados Unidos é muito clara. O presidente não apoia a descriminalização", afirma Dan Restrepo. "Não existe mágica nesse debate."

"A descriminalização não é uma solução nem uma opção viável, porque não vai acabar com o crime transnacional organizado." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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