REUTERS/Enrique Castro-Mendivil (06/06/2014)
REUTERS/Enrique Castro-Mendivil (06/06/2014)

Vladimiro Montesinos volta a protagonizar escândalo político no Peru 20 anos depois

Ex-chefe de inteligência de Fujimori é gravado armando suborno de juízes eleitorais

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 12h30
Atualizado 29 de junho de 2021 | 21h39

LIMA - Em meio à conturbada eleição presidencial, que foi realizada no dia 6, mas até hoje não teve o vencedor confirmado, o ex-chefe da inteligência peruana durante a ditadura de Alberto Fujimori, Vladimiro Montesinos, foi gravado tentando coordenar um esquema para subornar juízes do Júri Nacional de Eleições (JNE) para favorecer aos pedidos de impugnação protocolados pela filha do seu aliado e candidata à presidência, Keiko Fujimori.

As autoridades ainda não explicaram como Montesinos, de 76 anos, conseguiu fazer pelo menos dois telefonemas – reportagens apontam que podem ter sido 17 chamadas – de dentro da prisão de segurança máxima da Base Naval de Callao, onde cumpre pena por uma série de crimes, entre eles violações aos direitos humanos.

O episódio imediatamente trouxe à memória outro esquema de propina, que abalou a ditadura peruana em 2000. O mesmo Montesinos foi flagrado pagando a congressistas para apoiarem a base do governo. Os vídeos abriram uma crise sem precedentes, que terminou com o exílio de Fujimori no Japão.

A semelhança entre os casos, no entanto, acaba nos personagens envolvidos e no fato de haver gravações, segundo o cientista político Arturo Maldonado, professor da Universidade Católica do Peru. 

“No caso dos vídeos originais, em 2000, tínhamos um personagem no auge do seu poder entregando dinheiro a congressistas em salas reservadas. Agora não. São algumas palavras ditas por telefone, de dentro da prisão. Ainda não está claro se lhe resta algum poder real ou é apenas uma tentativa de se posicionar como alguém poderoso, quando na realidade já não tem tanto poder”, disse o analista.

As gravações foram divulgadas na quinta-feira pelo ex-congressista Fernando Olivera – que também teve papel na divulgação dos vídeos que incriminaram o ex-chefe da inteligência em 2000. “Provocou um pequeno tremor, mas não foi um terremoto político como os vídeos originais”, diz Maldonado.

Montesinos chegou ao mais alto posto do serviço de inteligência peruana ainda nos anos 90, após a ascensão de Alberto Fujimori ao poder. Ele se tornou a referência do governo no combate às guerrilhas, como o Sendero Luminoso. As condenações que cumpre hoje, referentes a esse período, também incluem corrupção e tráfico de armas e drogas.

Segundo Eduardo Dargent, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru, o efeito das gravações no cenário político foi menor, pois foram divulgadas após a Justiça peruana já ter julgado a ação sobre a extensão de prazo para apresentação de recursos da campanha de Keiko e de seu partido, Força Popular, julgando-a improcedente. O efeito teria sido muito mais destrutivo, segundo o professor, se a Justiça tivesse decidido em favor de Keiko, com os áudios sendo revelados em seguida. 

“A discussão já não seria somente se ele (Montesinos) tentou apoiar Keiko. Estaria sendo discutida a nulidade de toda a eleição, pois se diria que a ampliação foi feita a partir de um pedido corrupto, sendo ou não verdade.”

Desde que foi derrotada no segundo turno – a contagem oficial aponta vantagem de cerca de 44 mil votos para Pedro Castillo –, Keiko vem denunciando fraude nas eleições, mas sem apresentar provas.

Quatro áudios de telefonemas foram gravados e revelados por Pedro Rejas, um militar da reserva e ex-aliado de Fujimori, que recebeu as chamadas de Montesinos. No primeiro telefonema, Montesinos manda Rejas falar com o advogado Guillermo Sendón para que suborne três dos quatro juízes do JNE para impedir a proclamação de Castillo. No outro telefonema, Montesinos diz a Rejas: “Já não há outram(opção), pois passou muito tempo, faça o pai ou a menina (Fujimori e Keiko) entender que estamos tentando ajudar em um objetivo comum”. 

“O que eu ganho com isto? Nada. Só estou tentando ajudar, pois senão a menina terminará presa”, acrescentou Montesinos, referindo-se às acusações de que Keiko recebeu dinheiro da Odebrecht. 


 

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