Vocês não têm nada a ver com isso

Essa foi a grande mensagem que os eleitores deram aos republicanos, que durante a campanha questionaram o direito dos gays de se casarem e o aborto em caso de estupro

É COLUNISTA , ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h06

Saia dos nossos quartos.

Se houve uma mensagem inequívoca na rejeição do candidato republicano Mitt Romney e na reeleição do presidente Barack Obama, foi que os americanos não querem que os políticos interfiram em sua orientação sexual, no direito dos gays de se casarem, ou na escolha das mulheres na questão da reprodução.

Eles não querem, particularmente, que os republicanos brancos (homens) invoquem a questão religiosa para vomitar teorias a respeito da natureza do estupro ou se a gravidez depois da violação pode ser a vontade de Deus.

A multidão do country clube, quase toda branca, que se reuniu ao redor de Romney precisa aprender uma lição básica desta eleição: em matéria de sexo os Estados Unidos entraram no século 21.

A mudança foi rápida. Em 2004, o candidato democrata John Kerry perdeu porque os republicanos conseguiram estimular a participação dos evangélicos às urnas usando o casamento gay como chamariz. Qualquer candidato que aprovasse o casamento gay estava destinado ao suicídio político. Oito anos mais tarde, Obama apoiou o casamento gay num ano eleitoral e, apesar de uma economia em crise, ganhou.

Na era do Facebook, não houve maneira mais rápida de deixar de ser amigo de alguém, do que declarando apoio a Romney, mesmo que este apoio fosse motivado por questões econômicas, e não sociais. A escolha, qualquer que fosse seu motivo, podia parecer um ataque pessoal à comunidade gay ou lésbica, assim como à Geração X e à Geração do Milênio para as quais atacar a orientação sexual de uma pessoa parece muito século 20 - um resquício de outra era.

Mas, evidentemente, Romney estava mais preocupado com os canhões para a Marinha do que com o impacto para o mundo na mídia social.

Se depois desta derrota os republicanos continuarem agarrados ao conservadorismo social radical de sua direita tresloucada, ficarão ambicionando a Casa Branca ainda por muitos anos. As tendências demográficas estão claras.

Obama recebeu o apoio de 6 em cada 10 americanos com menos de 30 anos, enquanto Romney ganhou a maioria dos eleitores com mais de 65 anos. Como os democratas antes da chegada de Bill Clinton, os republicanos perderam o contato com o pulso predominante nos EUA.

Intolerância. Romney, que mora perto da cidade de Harvard e do MIT e da inovação científica, jogou fora uma eleição que poderia ter ganho por permanecer agarrado às ideias sociais de outra era, ideias que frequentemente disfarçam a intolerância sob roupagens religiosas.

E foi obrigado a fazê-lo para garantir sua base, ou pelo menos esta é a versão tradicional. Mas esta base não o levou a lugar nenhum. O pior é que nem sequer tenho certeza de que o próprio Romney acredite nestas ideias. Em todo caso, o repúdio dos eleitores americanos foi veemente.

É absurdo que alguém liberal do ponto de vista social, e conservador do ponto de vista fiscal, tenha dificuldade para encontrar um partido político no qual possa abrigar suas ideias nos Estados Unidos. O Partido Republicano deixou vago esse enorme espaço. Michael Bloomberg, o prefeito de Nova York, está lá, mas parece ter desistido de ambições políticas nacionais.

O liberalismo social está em ascensão e agora não há nenhum motivo para acreditar que esta tendência deva parar. Em Maine e Maryland, os eleitores aprovaram o casamento de pessoas do mesmo sexo. (Em 2009, o Maine rejeitou a lei que permitia estes casamentos.) Em Wisconsin, Tammy Baldwin tornou-se a primeira senadora abertamente lésbica. Em Minnesota, os eleitores rejeitaram o pedido para que fosse proibido introduzir na Constituição do Estado o casamento gay.

Em Indiana, que se voltou a favor de Romney nas eleições presidenciais, o deputado Joe Donnelly conquistou uma cadeira no Senado para os democratas, semanas depois de seu adversário, o Tesoureiro do Estado, Richard Mourdock, dizer que a gravidez decorrente de estupro é "vontade de Deus" e a vida é sempre um "dom de Deus".

Em Ohio, o falcão Josh Mandel, um jovem candidato republicano candidato ao Senado, foi derrotado pelo titular democrata Sherrod Brown. Mandel achou adequado chamar Mourdock de "uma referência" depois do comentário sobre o estupro.

Em Missouri, a senadora Claire McCaskill, uma democrata que parecia ser vulnerável, derrotou o deputado Todd Akin, cuja teoria peculiar era a de que as mulheres que são vítimas de "estupro legítimo" conseguiriam não ficar grávidas.

Os republicanos brancos do sexo masculino especulando desta maneira a respeito do corpo feminino aparentemente têm um problema - e o problema não é unicamente político.

Em Massachusetts, a democrata Elizabeth Warren recuperou a cadeira que durante muito tempo foi de Edward Kennedy no Senado, depois de uma campanha na qual dirigiu um forte apelo às mulheres. "Para todas as mulheres de Massachusetts que se matam de trabalhar", ela declarou, "vocês devem acreditar que vão lutar por salário igual para trabalho igual".

A mensagem para o Partido Republicano foi clara: vocês precisam aceitar a igualdade de direitos, a liberdade de escolha das mulheres, e as diferentes orientações sexuais dos americanos, ou continuarão perdendo.

Imigração. Outra mensagem para o Partido Republicano foi a da vasta maioria de latinos que votaram em Obama: deixem de mensagens negativas e utilizem mensagens positivas a respeito da imigração. Uma terceira, para os bilionários Sheldon Adelson deste mundo, foi que o dinheiro não pode comprar tudo (ele patrocinou vários candidatos republicanos).

O quadro social por trás da família Obama em seu momento de vitória foi uma imagem da América de hoje, uma América que considera o amor uma questão totalmente pessoal. Esta declaração - o nosso quarto é problema nosso - foi um dos grandes triunfos nacionais da noite. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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