Volta de câncer de Chávez acirra luta por sucessão

Dificuldade de líder venezuelano enfrentar campanha abre debate sobre a influência mundial do aumento da produção de petróleo em novo governo

STEVE LEVINE, FOREIGN POLICY, É CORRESPONDENTE INTERNACIONAL, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h09

A revelação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de que seu câncer retornou coloca sérias dúvidas sobre sua capacidade de fazer uma campanha pela reeleição em outubro e sobre o futuro das reservas de petróleo do país, oficialmente as maiores do mundo. Caso lhe falte a estamina ou se ele ficar incapacitado, o que virá em seguida - eleições limpas ou seu círculo de governo frustrará qualquer transferência potencial de poder?

Em suma, se houver um novo líder, pode-se imaginar uma mudança em que a Venezuela pare de usar sua riqueza petrolífera para apoiar um movimento guerrilheiro colombiano violento? A Venezuela levantará as restrições à produção de petróleo e se tornará um ponto decisivo na instável geopolítica do petróleo?

As evidências até agora são de que Chávez, que liderou a Venezuela por 13 anos, preparou uma estratégia dura "para defender a revolução", diz Stephen Johnson, diretor do America's Program no Center for Strategic and International Studies. O dado mais recente veio na segunda-feira, quando o filho de um congressista foi ferido a tiros por seguidores de Chávez num comício a favor do candidato de oposição Henrique Capriles.

Capriles, que é governador do Estado de Miranda, parece representar uma séria ameaça popular a Chávez. Ele foi eleito como candidato da oposição unida por estrondosa maioria no mês passado. Entre os pontos de seu programa está um novo dia para a economia venezuelana, alimentado por uma indústria de petróleo exportadora moderna.

Petróleo. Além da maior diversidade econômica que Capriles planeja em casa, o impacto geopolítico poderá ser considerável. Combinado com eventos petrolíferos já em andamento no Canadá, Dakota do Norte e Golfo do México, uma bonança venezuelana poderia inclinar a balança e deixar a região inundada de petróleo. O aumento do fornecimento de petróleo nas Américas do Norte e do Sul é uma nova dimensão num quadro de energia cambiante no qual a centralidade econômica global do Oriente Médio está ficando menos fixa. Em vez disso, o Oriente Médio está se tornando um de uma série de centros petrolíferos.

A Venezuela possui as maiores reservas oficiais do planeta - 296 bilhões de barris de petróleo. Boa parte delas está em óleo pesado viscoso na Bacia do Orinoco, que custaria muito para produzir e transportar ao mercado.

Como outras das chamadas reservas "não convencionais" de petróleo da região - as areias de Alberta, o petróleo de xisto e o de águas profundas no Golfo - o produto venezuelano está perto dos Estados Unidos, de longe o maior mercado mundial para a gasolina.

A Venezuela produz pouco mais de 2 milhões de barris por dia. A questão é se as empresas de petróleo poderão trabalhar mais livremente na Bacia do Rio Orinoco, e somar outro milhão de barris por dia ou mais à produção, disse David Pumphrey, vice-diretor de energia no Center for Strategic and International Studies. A Venezuela "poderia ser mais um desses não convencionais que mudam a dinâmica dos mercados globais", disse Pumphrey.

Capriles tentou se preparar para qualquer esforço oficial que tente solapar sua campanha. Ele procurou marginalizar os membros mais extremistas do círculo de Chávez ao sugerir que será "sensível aos sentimentos e desejos dos chavistas mais tradicionais", disse Johnson. Mas as nomeações militares de Chávez sugerem que ele está preparado para manter o poder dentro de sua estrutura. Em janeiro, Chávez alçou um altamente controvertido general - Henry Rangel Silva - a ministro da Defesa. Em 2010, Silva disse numa entrevista que não apoiaria nenhuma figura da oposição que vencesse as eleições de 2012. Em termos de biografia, Silva está numa lista americana de "Chefões das Drogas Estrangeiros" por seu alegado envolvimento no tráfico de cocaína. "Pessoas assim têm uma razão para permanecer no poder. Ele e outros provavelmente defenderiam o regime para salvar suas peles", disse Pumphrey. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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