Volta de deposto seria derrota para Chávez

A crise política em Honduras começou como um desastre para os defensores da democracia latino-americana. Não só porque a prisão e a deportação do presidente Manuel Zelaya pelo Exército, na semana passada, violaram a Constituição do país, mas porque beneficiaram a facção liderada pelo mentor de Zelaya, Hugo Chávez, que tenta derrubar as instituições democráticas na região. Felizmente, Chávez desperdiçou essa vantagem. Sua tresloucada tentativa de conduzir Zelaya de volta ao poder fracassou, produzindo um ridículo circo no ar e violência e morte em terra. Agora, com a ajuda dos EUA, o que poderia ter sido uma catástrofe tornou-se a oportunidade para derrotar o autoritarismo populista que Chávez e Zelaya representam. Entretanto, essa oportunidade dependerá de saber o quanto o governo de facto de Honduras, que afirma estar defendendo a Constituição, está disposto a ater-se a seu texto. Ontem, o presidente Oscar Arias, da Costa Rica, começou sua intermediação entre Zelaya e o presidente hondurenho de facto, Roberto Micheletti. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que teve papel importante na negociação, disse que o objetivo é evitar novo derramamento de sangue e obter a "restauração da ordem constitucional". Para Micheletti, isso significa uma concessão que ele e a maioria da elite política de Honduras não querem: o retorno de Zelaya à presidência.Para muitos hondurenhos, a concessão é arriscada e humilhante porque Zelaya sempre zombou das decisões do Congresso e da Suprema Corte ao procurar conquistar apoio popular para uma nova redação da Constituição. Contudo, assim que Zelaya voltar ao cargo, o peso da lei estará inteiramente do lado de seus adversários. Ele foi acusado de vários crimes - desde desacato ao Supremo até a invasão de uma base militar com uma multidão de partidários. Mesmo que ele não acabe na cadeia, há poucas chances de que possa ser bem-sucedido na mudança da Constituição. Porta-vozes da Suprema Corte, em Tegucigalpa, sugeriram a possibilidade de uma anistia para o presidente. Micheletti pode usar a promessa para fazer com que Zelaya saia pacificamente ao fim de seu mandato e respeite as decisões do Congresso e da Suprema Corte. Esse resultado seria uma vitória não apenas para Honduras, mas também para a difícil causa da democracia na América Latina. Chávez sonha com um putsch em Tegucigalpa que resulte em outra autocracia sem lei, como a sua. Em vez disso, poderá se defrontar com uma solução pacífica intermediada pelos EUA e por aliados moderados da América Latina, que fortalecerá a Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos. * Editorial extraído da edição de ontem do jornal ?The Washington Post?

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