Volume inédito de acordos será renegociado

Resultado das eleições legislativas no Reino Unido definirá a capacidade do governo de barganhar com 168 países

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 05h00

O resultado das eleições legislativas no Reino Unido pode definir a capacidade do governo de negociar um volume inédito de acordos comerciais e algo que, na diplomacia contemporânea, é considerado um desafio sem precedente para uma administração.

Um levantamento feito pelo serviço diplomático de Londres revelou que quase 900 acordos com 168 países terão de ser rediscutidos pelos britânicos ao deixar a União Europeia. São cerca de 300 tratados tarifários e outros 200 sobre regulações. Para completar, o Reino Unido terá de reavaliar centenas de outros pactos que, ao lado da Europa, assinou com parceiros sobre temas como fiscalização veterinária e até o fornecimento de combustível nuclear.

Somam-se ainda mais de 110 tratados que existem no marco da ONU e da Organização Mundial do Comércio, onde o Reino Unido até hoje seguia os mesmos compromissos assinados pela Comissão Europeia.

Uma vitória imponente da premiê Theresa May pode garantir maior flexibilidade e mandato para apresentar propostas de acordos não apenas com os demais parceiros europeus, mas também com o mundo.

Mas uma perda de espaço de seu partido pode criar uma situação de impasse em dezenas de assuntos e, assim, dificultar a capacidade de fechar acordos num curto período de tempo.

O comissário de Orçamento da UE, Gunther Oettinger, já alertou que se a Europa não chegar a um acordo com o Reino Unido sobre os termos do Brexit até março de 2019, o bloco “passará a considerar a relação com Londres da mesma forma que faz com Uganda”.

Diplomatas britânicos que conversaram com o Estado indicaram que, se na Europa o Brexit é considerado um desafio entre Bruxelas e Londres, a realidade é que a posição política do governo vai ter um impacto em todos os continentes. Esperando por uma definição política, o serviço diplomático britânico começa a se mobilizar para mudar o foco de sua atividade pelos próximos três anos. Para costurar uma nova relação com o mundo, vagas têm sido criadas.

O temor dos britânicos é que, sem acordos com parceiros estrangeiros, o Brexit acabe significando dificuldades reais para as exportações do Reino Unido, além de restrições para a livre circulação de pessoas e serviços. Estudos já mostram que, sem um acordo global, os cidadãos que votaram pela saída da Europa perderão quase 3% de sua renda em dez anos.

Um dos casos envolverá o Brasil e o Mercosul. Até o final do ano, o bloco sul-americano espera fechar um acordo comercial com a Europa. Mas, quando Londres deixar o bloco, um novo tratado terá de ser negociado, já que o mercado britânico deixará de fazer parte do entendimento de livre-comércio.

Tanto em Londres quanto em Brasília, os governos já indicaram que não querem esperar até o final do processo do Brexit para começar a debater um tratado. Com dezenas de empresas operando no complexo do pré-sal no Brasil, os ingleses temem perder preferências para fornecedores do restante da Europa se não houver um acordo.

Nos últimos meses, o diretor da OMC, Roberto Azevedo, deixou claro que considera a negociação entre Londres e Bruxelas “dura”. Mas a posição dos britânicos pelo mundo e a complexidade de se negociar acordos com outros parceiros vai depender, antes de tudo, de como será o acordo entre o Reino Unido e a UE. Para analistas, é essa relação que pode começar a ser definida nas urnas na quinta-feira. Não por acaso, May insiste que o tema “central” da eleição de quinta-feira será o Brexit.

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