Bryan Denton/The New York Times
Bryan Denton/The New York Times

Voluntários caminham pelo deserto do Arizona para auxiliar imigrantes

Grupo chamado Samaritanos de Tucson deixa galões de água debaixo de árvores com mensagens de estímulo e apoio às pessoas que tentam entrar ilegalmente nos EUA

Cláudia Trevisan, enviada especial / Tucson, EUA, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2017 | 14h45

TUCSON, EUA - Com dois galões de água na mochila e outro na mão, Baldemar Peralta guia o grupo de cinco voluntários do Samaritanos de Tucson em uma caminhada de 8 km pelo deserto do Arizona. As trilhas são as mesmas usadas por imigrantes clandestinos que usam a rota para entrar nos EUA a partir do México. O objetivo é deixar água debaixo de árvores, que estão com folhas verdes graças à época de chuvas.

Quando tem dúvida sobre o caminho a seguir, Peralta consulta Neha Gupta, que caminha munida de um GPS. O grupo saiu às 7h (locais) de Tucson, dividido em duas caminhonetes. Depois de viajar pouco mais de uma hora em direção ao Sul, os samaritanos estacionaram os carros em uma clareira e começaram a caminhada.

O ritual é repetido todas as semanas pela líder da excursão, Gail Kocourek, que se juntou aos Samaritanos há pouco mais de três anos. Cada galão pesa 4kg e ela carrega dois em sua mochila. Antes de deixá-los nas trilhas, os voluntários escrevem mensagens de estímulo e apoio aos imigrantes clandestinos, ao lado de desenhos de corações e flores.

Em seu trabalho humanitário, eles se equilibram em uma linha tênue entre o que é permitido ou não pela legislação americana. Se encontrarem uma pessoa em situação ilegal no caminho, os samaritanos podem doar água e comida, mas não podem transportá-la até à cidade, por exemplo.

Em 2016, Kocourek localizou um guatemalteco à beira da morte no deserto. Sem água e sem comida, ele não conseguia mais caminhar. Depois de socorrê-lo, a samaritana perguntou se ele preferia continuar ou se entregar à Patrulha da Fronteira. O guatemalteco optou por se entregar e permanecer vivo. Kocourek ligou para as autoridades e informou onde ele se encontrava.

A chegada ao poder de Donald Trump e seu discurso hostil aos imigrantes tornou ainda mais tensa a relação entre os policiais que atuam na fronteira e os que se dedicam ao trabalho humanitário. Em meados de junho, integrantes da Patrulha de Fronteira cercaram uma clínica mantida pelo grupo "Não Mais Mortes" nas imediações de Arivaca, comunidade que fica 18 km ao norte da divisa com o México, no deserto.

Os policiais buscavam quatro imigrantes clandestinos, cujo trajeto haviam acompanhado à distância desde sua entrada no território americano. Diante da recursa dos voluntários em entregá-los, eles obtiveram um mandado de busca e apreensão, invadiram o local e prenderam o grupo. 

"A operação comprometeu o funcionamento do centro médico. Imigrantes não vão mais buscar ajuda lá, porque temem ser detidos e deportados", disse o pastor presbiteriano aposentado John Fife, um dos fundadores do "Não Mais Mortes".

A clínica foi criada em 2012, quando a organização propôs um acordo de convivência para a Patrulha da Fronteira com base no Código de Conduta da Cruz Vermelha. "Nós temos objetivos diferentes. O dos agentes do governo é aplicar a lei. O nosso, é salvar vidas. Nós concordamos que não deveríamos interferir nas atividades do outro", lembrou Fife.

Segundo ele, o pacto foi respeitado por quase cinco anos, até a operação realizada há poucos meses.

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