Votação de Karzai já passa dos 50%

Em meio a denúncias de fraude, presidente afegão ultrapassa pela primeira vez barreira para vencer no 1.º turno

REUTERS, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Pela primeira vez em 20 dias de apuração da eleição presidencial afegã, resultados parciais apontaram ontem para uma vitória, já no primeiro turno, do presidente Hamid Karzai. Com 91,6% das urnas apuradas, ele teria 54,1% dos votos ante 28,3% de seu principal rival, o ex-chanceler Abdullah Abdullah. No entanto, o órgão de controle eleitoral da ONU no Afeganistão - que tem poder de veto sobre o resultado - reconheceu ontem pela primeira vez a existência de "claras e convincentes evidências de fraude" e anunciou uma recontagem parcial.

Karzai precisa ultrapassar 50% dos votos para vencer sem ter de levar a disputa ao segundo turno. Segundo os resultados parciais, portanto, o presidente está virtualmente reeleito.

Mas, pressionada pelas denúncias de fraude, a Comissão de Contestação Eleitoral, órgão de observadores internacionais apontado pela ONU, pediu a recontagem dos votos nos centros de votação onde os candidatos obtiveram mais de 95% dos votos. Segundo analistas, uma recontagem poderá estender as incertezas sobre o resultado em semanas ou até meses.

Na segunda-feira, o New York Times noticiou que partidários de Karzai prepararam cerca de 800 zonas eleitorais fantasmas. Segundo um diplomata ocidental que pediu anonimato, a cifra de centros de votação falsos em benefício de Karzai poderia chegar a 15% do total de zonas eleitorais do país.

Para Abdullah, a apuração oficial é uma "piada trágica". "Caso a fraude e não a vontade do povo decida o resultado das eleições, será muito difícil justificar os milhões de dólares gastos e os militares da Otan mortos", concluiu o segundo colocado na corrida eleitoral.

SUSPEITAS

Os novos indícios de irregularidades poderão colocar a comissão eleitoral da ONU em situação delicada, afirmam especialistas. Tanto se chancelar a apuração oficial, quanto se ordenar uma revisão após a provável reeleição de Karzai, o órgão internacional poderá expor a falta de legitimidade do novo governo afegão.

Para minimizar um desgaste, diplomatas ocidentais têm recomendado a autoridades afegãs que investiguem as denúncias de fraude antes de declarar o resultado final. "Não há vencedores nessa eleição até que a Comissão de Contestação Eleitoral investigue, profundamente, as supostas irregularidades e realize uma recontagem parcial", defendeu Aleem Siddique, o porta-voz da missão da ONU em Cabul.

No entanto, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ian Kelly, admitiu ontem que as investigações deverão levar meses. O mais importante, disse Kelly, é que o processo eleitoral assegure a afegãos a legitimidade do resultado.

A comissão eleitoral da ONU ordenou que autoridades afegãs investiguem seções eleitorais onde candidatos receberam 95% dos votos e onde o número de cédulas depositadas foi maior que 600, o limite de acordo com a lei eleitoral.

O órgão internacional disse estar investigando cerca de 600 zonas eleitorais "suspeitas", entre elas vilarejos onde Karzai obteve todos os votos válidos.

NOVOS ATAQUES

Ainda ontem, um carro-bomba foi detonado no lado de fora de uma base da Otan no principal aeroporto de Cabul, matando três civis. Um porta-voz do Taleban assumiu responsabilidade pelo ataque, o mais mortífero desde as eleições do dia 20.

Outro ação atribuída ao Taleban deixou quatro militares americanos e seis soldados afegãos mortos no leste do país, na fronteira com o Paquistão, informou o Pentágono. Pelo menos 18 pessoas ficaram feridas.

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