REUTERS/Philippe Wojazer
REUTERS/Philippe Wojazer

‘Votação é a reação ao Brexit e a Trump, que desafiou a Europa’

Ex-premiê da Itália considera eleição na França como crucial para decidir o futuro do bloco europeu

Entrevista com

Enrico Letta, ex-premiê italiano e professor da Sciences-Po

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

Depois de imensas surpresas eleitorais em 2016, o Brexit, no Reino Unido, e a vitória de Donald Trump, nos EUA, as atenções se voltam para o duelo entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, na França. Para o ex-primeiro-ministro da Itália Enrico Letta, a eleição francesa terá um alcance mundial e será decisiva para o futuro da União Europeia. Segundo ele, ou o candidato centrista vence, ou será o fim do bloco. Letta é decano da Paris School of International Affairs, do Instituto de Estudos Políticos (SciencesPo). Ele governou a Itália em um de seus períodos mais turbulentos, entre abril de 2013 e fevereiro de 2014. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Em artigo, o sr. manifestou apoio a Emmanuel Macron. Por quê?

Porque essa eleição pode parar a sequência terrível de 2016, marcada pelo Brexit, no Reino Unido, e pela vitória de Donald Trump. Como EUA e Reino Unido são, além da França, os dois países ocidentais que têm assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, se a França não interromper essa sequência eleitoral será o fim da União Europeia. Estamos no terceiro tempo da partida, o tempo decisivo. Ou vemos o fim dessa sequência eleitoral e o fim dessa tendência, ou será o fim da União Europeia. 

A eleição na França entre Macron e Le Pen seria um referendo sobre a UE? 

Sim, é uma espécie de referendo sobre a UE, mas também uma aposta, um tudo ou nada. Trata-se de uma eleição presidencial única na Europa. Em seu segundo turno, vemos o campeão do europeísmo, Macron, contra a campeã da destruição da UE, Le Pen. Essa eleição pode representar o relançamento da UE – e a França será decisiva nesse processo –, ou seu fim. Como defendo o relançamento da UE, apoio Macron. Sua experiência de governo também mostra que ele trabalhou muito com seu homólogo alemão para relançar a união econômica e monetária, o que será favorável ao relançamento da UE. 

Qual a amplitude da dimensão europeia dessa eleição?

Nos últimos anos, fomos longe demais na propagação da ideia de que os franceses e os europeus são contra a União Europeia. Vivemos uma política de comunicação que chegou ao ápice com o Brexit e a vitória de Trump, ambas maiores do que a própria realidade que eles representam. O aspecto comunicacional do Brexit, e depois de Trump, foi tão forte que passou ao mundo a imagem de que a UE estava acabada. Mas veja as pesquisas: 70% dos franceses não querem deixar a UE. Uma vitória de Macron, com ampla maioria, reforçará o recado de que a França quer a União Europeia. Até aqui se falava que os franceses favoráveis à integração não eram democráticos, mas tecnocráticos. Não é verdade.

Ainda que a eleição tenha um caráter europeu, as preocupações dos eleitores foram os impactos nacionais: o desemprego, a imigração, o terrorismo.

Naturalmente, é uma eleição sobre o papel da França e sobre as relações francesas. Mas seu impacto é algo que vai mudar completamente a Europa, porque nos dará uma pista de trabalho diferente. Uma derrota dos populistas vai ajudar a definir os rumos na Alemanha, na Itália. É preciso olhar a eleição francesa como uma reação ao Brexit e a Trump, que desafiou a UE. 

Ainda que Macron seja o vencedor, o discurso populista avançou. Como contê-lo?

É preciso que a UE mude de discurso em relação ao povo. O discurso da Europa mudou nos últimos anos de uma forma negativa. Há 30 anos, 20 anos, o discurso da UE era de uma instituição que trazia oportunidades a todos os cidadãos europeus. Hoje, a UE é percebida como uma instituição fria que só aporta soluções à parte cosmopolita da população europeia. Um exemplo: o programa Erasmus, para estudantes de ensino superior, é um grande sucesso por parte da UE, mas funciona apenas para estudantes universitários, que são uma parte minoritária de nossas sociedades. Se a UE só faz coisas em favor da parte cosmopolita, ela será percebida como uma instituição para as elites. 

Que soluções seriam essas?

Sobre o Erasmus, por exemplo, seria necessário fazer um programa similar para estudantes secundaristas, que teriam uma experiência internacional financiada pela UE. Outro exemplo: a política de seguro-desemprego deve passar a ser alvo de uma iniciativa europeia. 

O euro também foi um dos pontos importantes da eleição na França. Macron o defende. Le Pen quer extingui-lo. O euro forte demais não trouxe benefício para todos, alemães e gregos, por exemplo. O que fazer? 

Há uma discussão particular sobre o euro, sobre a necessidade de uma verdadeira união econômica e monetária na União Europeia. A união econômica precisa evoluir. 

Se essa mudança ocorrer, o Brexit e a vitória de Trump terão sido choques positivos para a Europa?

Se Macron vencer, creio que o Brexit e Trump terão sido choques positivos para a UE, que terá de assumir suas responsabilidades e se tornar mais adulta. A crise econômica foi muito forte, o desemprego cresceu muito. Nesse período, a Alemanha foi percebida como uma potência forte demais, que desequilibrava o poder. A Europa precisa de equilíbrio. 

Teremos neste ano ainda eleições cruciais na Alemanha e na Itália, além de República Checa e Reino Unido. A eleição na Itália, onde os populistas do Movimento 5 Estrelas também têm muito peso, não será um novo desafio?

Vejo a situação da Alemanha como positiva, já que a atual chanceler, Angela Merkel, e seu oponente social-democrata, Martin Schulz, são candidatos pró-Europa. A situação italiana é mais difícil, mas ainda está em movimento. Na Europa, como na França, há um grande problema sobre a força dos partidos tradicionais. Essa é a grande lição da eleição francesa. É preciso ver o que vai se passar na Alemanha e na Itália com as legendas históricas. É o grande tema das democracias ocidentais neste momento. 

 

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